domingo, 9 de setembro de 2012

Notas sobre a educação: sala de aula

Me preocupo em refletir sobre as coisas que aprendi e vivi nos meus quatro anos de magistério. Refletir sobre as minhas atitudes, tanto as que foram acertadas quanto as que foram trágicas; sobre as escolas pelas quais passei, suas condições de trabalho, seu corpo docente e discente; refletir, acima de tudo, sobre a essência da educação, da formação do aluno, do trabalho de um professor, da organização de uma escola. Nesse texto aqui falarei sobre uma parte muito dramática desse assunto: a sala de aula, ou, melhor dizendo, a aula...

Penso que a principal tarefa de um professor numa sala de aula é a de traduzir o objeto da sua matéria para o seu aluno. Traduzir, esse é o verbo que, pra mim, é o princípio de tudo no entendimento de qualquer coisa em sala de aula... Como profissional das ciências sociais, que são constituídas por disciplinas cujo nível de abstração é bastante profundo, penso que o papel da tradução numa aula é particularmente difícil. Como falar do conceito de solidariedade em Durkheim para adolescentes de 15 anos? Como explicar a estrutura do capitalismo em Marx, o conceito de ação social em Weber, a relação entre sociedade e indivíduo em Simmel, ou o consumo em Bauman? Como fazer o meu aluno entender que o que lhe é familiar se trata, na verdade, de uma construção social? 

Para quem, assim como eu, ensina sociologia para adolescentes e adultos na escola sabe sentir o drama dessas perguntas. Traduzir a matéria é fazer o aluno entender o que está sendo dito, numa comunicação entre o seu mundo de professor e o do seu aluno. Entendo que professores e alunos vivam mundos diferentes em vários aspectos. Pra citar um desses aspectos, basta pensar que o professor é um profissional especialista numa matéria, enquanto os alunos são estudantes de várias matérias, as quais não possuem, em essência, relação uma com as outras. Isso sem falar em outras diferenças entre professores e alunos, como as de geração, de classe social, de cultura, de personalidade... Como encarar uma turma com 50 alunos totalmente desconhecidos por você, professor? Como tratar de temas como a homossexualidade para alunos fundamentalistas cristãos? Como falar de racismo num país que nega o seu racismo, como o Brasil? Como falar de sociologia para uma turma que não vê sentido na escola?




Na minha opinião, atingir o aluno, conseguindo passar as ideias de sua matéria para ele, é a chave para uma relação professor-aluno minimamente harmônica, com sentido educacional e humanista. Isso não significa dizer (pelo amor de Deus) que o professor é o maior responsável pelo sucesso ou pelo fracasso da escola. NÃO! Muitas outras coisas contam num processo de sucesso ou de fracasso escolar, como infra-estrutura das escolas, salários dignos para os profissionais do meio escolar, alunos que se interessam pela escola, escolas que se interessem por seus alunos, apoio familiar ao aluno, etc. O professor é, enfim, um dos vários participantes do que chamo de cultura escolar, não o herói que salva a vida dos seus alunos em atitudes de sacrifício e martírio, como alguns filmes americanos gostam de retratar. Professor não é herói, ele é um profissional. Porém, se o professor não consegue colocar o aluno no clima do que ele está querendo dizer, sua aula certamente será um fiasco.

Digo isso porque muitas aulas que eu dei deram certo porque eu consegui fazer a ligação entre o que estava sendo dito por mim e alguma coisa que interessava ao aluno, algum assunto próprio do mundo dele. Falar da relatividade  da concepção de infância usando Harry Potter como exemplo para alunos fãs do livro e/ou dos filmes é um sucesso, assim como falar das características da modernidade mostrando ao aluno a dificuldade que os adolescentes do sexo masculino (inclusive o professor deles) tinham no passado de assistirem a filmes pornôs, por dependerem da televisão, e como isso é fácil hoje com a internet e as muitas possibilidades de comunicação de uma mundo cada vez mais veloz e multiplicado. Todas as vezes que eu falo das minhas sagas assistindo a filmes eróticos franceses (escondido da minha mãe) que passavam na rede Bandeirantes na minha adolescência, e como seria mais fácil pra mim se naquela época computador não fosse coisa pra rico, meus alunos morrem de rir, ao mesmo tempo em que entendem um aspecto importante da modernidade: a circulação ampla e relativamente irrestrita de informação. Há então a comunicação. Há aula...

Claro que vocês podem pensar que as minhas aulas possuem uma descontração quase anti-ética. E eu vou dizer que sim sem titubear. Se o professor for aquele cara puramente formal, secamente profissional, ele não vai conseguir transpor o abismo que, a princípio, existe entre ele e sua turma. No profissionalismo do docente deve haver uma boa dose de irreverência e coragem, caso contrário o professor será derrotado. Por fim penso que o professor deve também entender que está lidando com pessoas numa faixa etária diferente da dele (com exceção dos Ejas) e com pessoas cujas histórias de vida são muito diferentes entre si, com perspectivas diferentes, atitudes diferentes... Repetindo, são mundos diferentes os de professores e alunos. Não cabe, então, reduzir os problemas da educação ao desinteresse e "burrice" dos alunos e aos erros governamentais na educação. Cabe uma auto-avalização do professor sobre a sua própria aula, assim como sobre o que ele está fazendo para mudar as suas condições de trabalho.  Muitos professores que conheço fazem das salas dos professores verdadeiros purgatórios das bestas, transformando-as em espaços de expressão de desprezo pelo corpo discente e por políticos "que não fazem nada". Geralmente são esses os mesmos professores que nem se interessam em dar uma boa aula, nem fazem greve, nem votam direito. Ou seja, são menos que nada...

Um comentário:

  1. Engraçado que eu estava comentando hoje mesmo sobre você, que vc foi um dos melhores professores que eu tive, apesar de ser suspeita a falar pq amo sociologia ,mas você sabia envolver a realidade da nossa sociedade com temas interessantes para nossa idade, nunca fugindo do foco .. fico feliz por vc ter continuado e não ter perdido essa essência , digo e repito que suas aulas sua matéria era conversada e você tem uma mente excelente para bater um papo.. parabéns rs fui sua aluna no Mario Campos , no ano de 2010...

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