Tinha levado um tiro no ombro esquerdo. Estava exausto. Tinha
caminhando por dias a fio, fugindo do exército inimigo, que estava
incansavelmente no seu encalço. Tinha sede. Sua garganta parecia um caminho de
pedras secas, pois doía cada vez que ele engolia sua saliva. Arranhava. Às
vezes tinha a impressão que estalava enquanto engolia. Suas pernas pareciam
duas bombas que a qualquer momento explodiriam. Latejavam de uma dor profunda
de quem anda sem objetivo, de quem anda muito, de quem percorre “léguas tiranas”
na tentativa de se afastar e combater tiranos. Tinha marcas por todo o corpo.
Marcas de tiros, de socos, de golpes com faca, de sujeira acumulada pela viagem
sem fim. O sol batia forte na cabeça. Rachava corpo e alma. Sua roupa já tinha
sido reduzida a trapos. Tinha rombos enormes na camisa e na calça. O capacete
tinha praticamente sido grudado à cabeça.
Acabara de achar uma pequena árvore, sob a qual podia deitar
um pouco e respirar de forma mais tranqüila. Já não agüentava mais andar
naquela região de muito sol, pouco verde e nada de água. Uma região seca no
sentido estrito do termo. Aquela árvore parecia ter caído do céu, ter surgido
das entranhas da terra de forma repentina, ter se materializado como um sopro
de um espírito bom que se compadeceu dele, de sua situação, de sua pobreza, de
seu estado. Deixou seu corpo magro cair sob a pequena árvore e agradeceu a Deus
por ter um pouco de sombra depois de horas sem descanso. Pegou sua garrafa de
água, que estava pendurada a uma corda amarrada à sua cintura. Nada havia
dentro dela, e ele sabia disso. Porque a pegara? Não sabia responder... Seu
raciocínio estava desconexo. As coisas vinham à sua mente assim, sem mais nem
por quê, desde que a guerra começara.
A guerra... Lembrar-se dela agora o feria de forma mais
profunda do que nunca. Tudo começou com o surgimento do Partido Total. Era um
partido estranho, cuja bandeira tinha cores fortes, amarelo e preto, e o número
da legenda era 7. Em um mundo onde tudo era recortado, as opiniões eram
recortadas, as notícias eram recortadas, as idéias eram recortadas e as
doutrinas eram recortadas, o Partido Total oferecia uma interpretação do mundo,
um horizonte, uma idéia simples, fechada e conclusiva: “Ao governo, todo o
poder. Ao povo, a obediência.” Naquele país a democracia ainda era uma coisa
nova, uma ideologia vaga que estava tomando, aos poucos, a mente de um povo
cujo passado centenário estava repleto de manda-chuvas, de figurões que
concentravam em si todo ou quase todo o poder. Aquele povo tinha se acostumado
a obedecer, tinha construído para si a idéia de que o governo é uma coisa que
está longe, muito longe de todos, e que só aparece para importunar a vida das
pessoas. Até que a democracia surgiu, como um acidente, um acontecimento
inesperado e bem vindo, apesar de não se saber muito o porquê ela era bem
vinda. Porém, não fazia muito tempo que a democracia havia vencido as relações
de poder desse lugar, quando surgiu o Partido Total. De início um partido de
aparentemente composto por lunáticos, mas que, aos poucos, virou um partido que
alcançava as lacunas psíquicas de um povo cuja alma era autoritária. O slogan
de poder e obediência vinha embasado por uma idéia crucial: era tudo pelo bem
do povo. O poder existe para o povo, sendo ele exercido por homens valorosos em
cujas mãos estava o futuro da sociedade. Um governo forte era preciso para
proteger as pessoas delas mesmas...
Daí os acontecimentos foram se sucedendo: popularização do
partido, vitória nas eleições e dissolução da Constituição. Tudo isso para nos
proteger... Porém um punhado de pessoas, do qual ele fazia parte, começou a se
perguntar: proteger do quê? Onde que fica a minha opinião nisso tudo? “Que
idéia maldita”, pensou com os olhos lacrimejando, e deixando turva a visão de
um horizonte amarelado... No fundo ele sabia que a idéia era boa, e era isso
que mais doía. Na sociedade onde vivia, a idéia não poderia ser boa. Deveria
estar em conformidade com o rumo das coisas. E esse rumo não era decidido por
ele. Ele não queria que as coisas rumassem desse jeito. Azar o dele... Juntou
um punhado de terra em sua mão direita e a jogou longe... Foram essas idéias de
defesa da democracia que o tinham levado a se juntar àquele grupo rebelde. Eram
10 soldados que acreditavam que a luta armada seria a solução contra aquele
governo autoritário. “Um golpe pelo povo e para o povo”, era o resumo da idéia
do grupo. “Um povo de dez pessoas”, pensou ele. “Que merda de povo era esse?”.
Agora via com clareza que eles não tinham chance contra aquele governo com
aquela pequena resistência. Porque não vira isso antes? Não saberia dizer... No
calor das idéias, não percebera o óbvio: perderia a luta perdida. O exército
dos rebeldes foi massacrado. Só ele tinha sobrevivido, e fora empurrado para
aquela região inóspita da cidade. E estava sozinho agora sob aquela pequena
árvore.
Sozinho até aquele momento. Ouviu um barulho nas suas costas.
Virou-se. Viu ao longe um grupo de dezenas de soldados, cujos uniformes eram
bicolores, amarelo e preto. “São eles”, pensou. “Vieram me buscar”. Teve medo.
Vira o que ocorreu com os outros soldados quando foram pegos. Foram todos
mortos, todos, sem exceção. Só ele tinha conseguido escapar até aquele momento,
só Deus sabia como. E estava ali, com medo. Mas não havia mais o que fazer. Não
agüentaria mais andar nem meio metro. Seus pés doíam demais. “Deus... eu tinha
tantos planos para a minha vida... então... é assim que termina... a minha
vida?”. Era trágico, mas era verdade. Olhou de novo para trás e viu os homens
de amarelo e preto se aproximarem cada vez mais. De repente a tensão no seu
corpo se desfez e ele relaxou. Tinha se entregado... De corpo e espírito...
Pensou na irmã que não via há mais de 6 anos, desde que ela casara e fora morar
longe dele... Pensou na última vez que fez amor, na sensação, no prazer, no que
sentira em seu peito... Pensou na professora de artes, que tinha lhe ensinado
dramaturgia.. Pensou no sorriso de sua mãe e nas palavras de cuidado dela...
“Cuide-se, filho. Fuja dos homens maus...”. Pensou no seu time de futebol, que
tanto o tinha feito chorar e sorrir, concedendo-lhe humanidade... Pensou nos
sonhos que nunca, nunca se concretizariam em sua vida... A casa própria... Uma
viagem pela Europa... Ver o nascimento de um filho seu... E pensou nos amigos
satisfeitos com suas vidas de obediência e alienação... Pensou... Até que os
passos pararam do seu lado, um chute beijou sua nuca com toda a violência
desnecessária desse mundo desnecessário... Doeu... E caiu... Terra entrou em
sua boca, e ele tossiu... Com o rosto grudado na terra e a cabeça latejando de
dor, pensou em todas as pessoas que estavam levando suas vidas normalmente,
felizes, com suas TVs, seus Xboxs, suas casas, suas camas, seus salários...
Tudo certo... Todos protegidos... Todos rindo... Apesar de não saberem por quê
riam... E foi aí que ouviu um
disparo.... E depois... Não pensou mais...

Acho que é mesmo assim que somos esmagados pelos fúteis, por aqueles que não lutam e nem querem... tomara que consigamos sobreviver a esse mundo desnecessário com os sentimentos necessários...
ResponderExcluirparabéns, excelente texto!!