Esse bilhete ou carta foi escrito por Pablo Borges
momentos antes de ele se matar num hotel em Congonhas, Minas Gerais, com um
tiro na cabeça. Essa carta foi encontrada pelo delegado Plínio Lopes, da polícia de Congonhas. Foi publicada na íntegra no jornal local A Cidade um dia depois do corpo de Pablo ter sido descoberto. Os jornalistas d' O Horizonte de BH não se conformam até hoje com o fato de essa carta ter sido publicada num insignificante jornal mineiro. Mas A Cidade foi quem entrou para a história.
Há algumas controvérsias em torno dessa carta. O terceiro parágrafo foi encontrado com muitas manchas de sangue, não só ele, é claro, mas sobretudo ele, de modo que ficou muito difícil a leitura do mesmo. Foram necessários dois peritos para decifrar a carta como um todo e, sobretudo, seu terceiro parágrafo. Os dois, Pedro Paulo, de 28 anos, e Antônio Carlos, de 37, não chegaram a um consenso sobre o que estava escrito nele. Certo é que esse trecho trata de Lúcia Santos, importante artista plástica brasileira, que fora casada com Pablo durante dez anos. Na versão da carta produzida pelo perito Pedro esse parágrafo é bem menos elogioso do que na versão de Antônio. Mas, por qualquer razão, foi o último quem teve os louros da ter saído vencedor na perícia da carta do prêmio Nobel Pablo Borges.
De acordo com o delegado Plínio Lopes, ao lado do corpo de Pablo, além dessa carta, havia uma guimba de cigarro Camel. Acima da cama do escritor havia um maço de cigarros vazio, assim como o livro O Aleph, de Jorge Luís Borges, uma edição portuguesa de A Literatura Nazi nas Américas, de Roberto Bolaño, o Sandman- Prelúdios e Noturnos, de Neil Gaiman e, por fim, uma edição de A morte de Ivan Ilítch, de Tolstói. Havia também uma mochila com algumas roupas do escritor, uma carta de um homem chamado Henrique, ao que tudo indica o mesmo Henrique citado na carta suicida de Pablo, desodorante, pasta e escova de dente e um notebook. Segundo informações não oficiais, nesse aparelho havia algumas obras inacabadas do escritor.
Borges deixou dois filhos, um amante - esse tal de Henrique que ninguém sabe quem é ao certo - e uma vasta obra composta por 10 romances, 13 contos e 22 ensaios de crítica literária, sendo o mais famoso deles Dostoiévski, um escritor de direita, que causou profundas e fervorosas críticas por parte dos ensaístas e estudiosos da obra do autor russo, os quais consideram até hoje Dostoiévski como um pensador de inclinação esquerdista. Borges recebeu vários prêmios de literatura ao longo da carreira, dentre os quais o maior deles foi o Nobel de Literatura, conquistado em 2009, para delírio de toda a imprensa brasileira. Sua ex-esposa, Lúcia Santos, detém os direitos da obra do autor. Seus fãs, espalhados pelo Brasil, Europa e Américas do Sul, Central e do Norte, continuam ávidos pela publicação de obras novas, mesmo que inacabadas, de Borges. Lúcia não se pronuncia sobre isso, tampouco os secretários responsáveis pela revisão e publicação da obra de Borges.
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Há algumas controvérsias em torno dessa carta. O terceiro parágrafo foi encontrado com muitas manchas de sangue, não só ele, é claro, mas sobretudo ele, de modo que ficou muito difícil a leitura do mesmo. Foram necessários dois peritos para decifrar a carta como um todo e, sobretudo, seu terceiro parágrafo. Os dois, Pedro Paulo, de 28 anos, e Antônio Carlos, de 37, não chegaram a um consenso sobre o que estava escrito nele. Certo é que esse trecho trata de Lúcia Santos, importante artista plástica brasileira, que fora casada com Pablo durante dez anos. Na versão da carta produzida pelo perito Pedro esse parágrafo é bem menos elogioso do que na versão de Antônio. Mas, por qualquer razão, foi o último quem teve os louros da ter saído vencedor na perícia da carta do prêmio Nobel Pablo Borges.
De acordo com o delegado Plínio Lopes, ao lado do corpo de Pablo, além dessa carta, havia uma guimba de cigarro Camel. Acima da cama do escritor havia um maço de cigarros vazio, assim como o livro O Aleph, de Jorge Luís Borges, uma edição portuguesa de A Literatura Nazi nas Américas, de Roberto Bolaño, o Sandman- Prelúdios e Noturnos, de Neil Gaiman e, por fim, uma edição de A morte de Ivan Ilítch, de Tolstói. Havia também uma mochila com algumas roupas do escritor, uma carta de um homem chamado Henrique, ao que tudo indica o mesmo Henrique citado na carta suicida de Pablo, desodorante, pasta e escova de dente e um notebook. Segundo informações não oficiais, nesse aparelho havia algumas obras inacabadas do escritor.
Borges deixou dois filhos, um amante - esse tal de Henrique que ninguém sabe quem é ao certo - e uma vasta obra composta por 10 romances, 13 contos e 22 ensaios de crítica literária, sendo o mais famoso deles Dostoiévski, um escritor de direita, que causou profundas e fervorosas críticas por parte dos ensaístas e estudiosos da obra do autor russo, os quais consideram até hoje Dostoiévski como um pensador de inclinação esquerdista. Borges recebeu vários prêmios de literatura ao longo da carreira, dentre os quais o maior deles foi o Nobel de Literatura, conquistado em 2009, para delírio de toda a imprensa brasileira. Sua ex-esposa, Lúcia Santos, detém os direitos da obra do autor. Seus fãs, espalhados pelo Brasil, Europa e Américas do Sul, Central e do Norte, continuam ávidos pela publicação de obras novas, mesmo que inacabadas, de Borges. Lúcia não se pronuncia sobre isso, tampouco os secretários responsáveis pela revisão e publicação da obra de Borges.
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Acho que eu descobri da vida tudo o que ela poderia me oferecer. Mesmo
sem ter vivido tudo, conhecido tudo, feito sexo com todas as mulheres e homens
existentes no planeta; mesmo sem ter estado em Woodstock ou visto um show do
Led Zeppelin; mesmo sem ter conhecido Virginia Woolf ou ter conversado horas a
fio com Roberto Bolaño; e mesmo sem ter tido a experiência de ser possuído por um
orixá, num transe homérico e profundo do qual eu saísse esbaforido, creio ter
captado tudo o que há na vida, através de mim, através de meus pensamentos,
através da arte, da minha arte.
Nasci numa família pobre, apesar de ter tido todos os bens materiais
que uma criança pudesse querer ter. Cresci em escolas medíocres e cercado de
bons amigos. Cheguei à faculdade e descobri meu desejo por meninas e meninos.
Meu corpo mostrava a mim que ele era o expressar da difusão de minha própria
alma. Desde pequeno sempre olhei tudo e todos com muita curiosidade. Nada me
chamou a atenção de forma exclusiva por muito tempo. Minha vida sempre foi uma
eterna e infinita distração à la Leminski. E creio que tenha vencido, distraído.
Amei e fui amado. Escrevi livros e tive sucesso. Conheci Paris, Londres e
Berlim. Amei intensamente um homem pobre de Chicago, num bairro pobre de
Chicago. Conheci o terreiro no qual Pierre Verger foi iniciado no candomblé em
Benin. Fui considerado um dos melhores escritores de minha geração. Escrevi sobre
o sentimento humano, sempre. Escrevi o já escrito. E fui aplaudido de pé em
centenas de cerimônias de prêmios literários pelo mundo afora.
Lúcia Santos foi a mãe de meus dois filhos e minha mulher durante meus
mais belos anos. E durante parte dos mais sombrios e belos anos de minha vida
também. A bela e inigualável Lúcia. A também artista consagrada, mais
consagrada do que eu. A Lúcia do sorriso leve e dos pelos púbicos mais lindos e
cheios que já vi em toda a minha vida. A Lúcia com sua nudez pornô-erótica anos
60 e 70. A Lúcia da pele clara, dos cabelos negros e da arte mais profunda e do
sorriso mais bonito, e dos lábios mais bem desenhados e dos quadros mais bem
pintados e das cores mais almodóvicas na sua arte. A Lúcia que me fez aprender
o que é arte contemporânea. A Lúcia que me fez apreciar a arte em todos os seus
tempos e em todas as suas formas. A Lúcia, sobre quem tanto se escreveu em
tantos livros sobre arte em todo o mundo, foi a minha mulher e minha
companheira. Mãe dos meus filhos. Minha primeira ménage à trois. A minha Lúcia
por dez anos.
Vendo hoje meus filhos entrando na faculdade e sendo encaminhados para
os caminhos superficialmente retos da vida, me lembro de quando eles eram
pequeninos. Seus sorrisos, seus choros, seus abrigos em meu peito. Seus sonos.
Pedro gostava de dormir na minha barriga, babando-a como um chafariz de alegria
e descaso com o mundo em sua volta. Ríamos muito dessa cena, e mesmo que minha
barriga se balançasse em intensas contrações de uma graça mal prendida, Pedro
dormia como se o mundo não existisse, como se só seu sono existisse. Mariana
aprendeu a amar e a odiar Pedro na mesma medida. Não me via como um porto
seguro e um amigo para todas as horas, como Pedro. Desde pequena, Mariana sempre
foi desconfiada e arredia. Mas seu rosto nunca conseguiu esconder o mistério de
seu coração. Ela sempre olhou o mundo com uma sensação de estranheza, como se
tudo em sua volta fosse muito esquisito, esquisito demais para ser levado a sério
ou para ser amado. Mas ela amava. Não o mundo, mas a mim e a sua mãe. E a
Pedro, seu maior inimigo e maior de todos os amigos. Do seu jeito, Mariana
sempre amou a todos. E eu tive o prazer de gerar, criar e ver crescer dois
seres humanos que de mim saíram.
Estranho notar que a mesma porra da qual meus filhos saíram foi a
mesma, mesmo que não exatamente a mesma, que joguei em tantos homens e mulheres
que tive. A mesma que jogava em Henrique, bem dentro de Henrique. A mesma que
eu esparramava, por um prazer puro, quase artístico, nos pelos de Lúcia. O
branco leitoso no negro áspero mais doce do mundo. Do mesmo rio natural branco
cremoso pode sair belezas muito diferentes. A beleza de poder ver seus filhos
crescerem. E a beleza do sexo. Da liberdade do sexo. Da confusão do sexo, onde
nada pode ser cartesiano, não se as pessoas se permitirem sentir. Talvez seja
por isso que a Igreja sempre tenha visto no sexo o seu inimigo. Ela percebeu
que o sexo era a origem da família, dos homens, das mulheres, das crianças, dos
gays, das lésbicas, das bruxas, dos transexuais, dos assassinos, dos corruptos,
dos santos e dela mesma. Decidiu, pois, por esconder essa incongruência,
colocando-a no interior dos desejos calados das batinas apertadas. Do decoro
hipócrita. Da violência nossa de cada dia, que mantém a nossa civilização
respirando.
Seja como for, creio que vi e vivi o bastante. Depois que vi o
Cosmococa de Oiticica em Inhotim, percebi que não se pode ir mais longe numa
existência humana do que as experiências que tive. Ouvir rock deitado numa rede
é a síntese mais possível e certeira das possibilidades e da miséria da vida
humana. Pois a mesma civilização hipócrita defendida pela Igreja permanece à
espreita de Oiticica o tempo inteiro. Cosmococa só faz sentido por causa dessa
civilização. A anti-civilização só pode existir por causa de seu contrário. E
isso é tudo. E já estou cheio de tudo. Esse texto é o último livro que escrevo.
Essa cidade é a última que respiro.
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