domingo, 23 de março de 2014


E de repente tudo se fez estranheza. O mundo, que até ali tinha sentido, agora parecia ser um labirinto de becos sem razões e sem destinos. Tinha sido um menino que caminhara num mundo no qual deus era o arquiteto e satanás o contra-arquiteto. O que não viesse do planejamento divino viria, forçosamente, do anti planejamento do maior de todos os anjos decaídos. Na verdade, o mundo tinha tanto sentido para ele que as forças satânicas estavam inscritas na vontade de deus. Tudo no final acabaria bem para os justos. A única e inabalável questão nesses tempos era se, no fim dos dias, ele seria ou não um justo, pois isso dependeria do julgamento de deus. De resto, era viver esperando a volta do dito ressurreto.

Mas as águas de Março batiam agora na janela do ônibus que rumava para a faculdade. E ele já não tinha mais certeza de nada. Não estava mais fugindo dos seus demônios, tampouco estava convencido de que eram demônios. A opressão da certeza dava lugar agora ao medo da profunda abertura do futuro. Tudo agora era arte, e ele era, em última instância, um artista, como todos eram.

Havia descoberto recentemente a música de seu país. Como era emotiva a música brasileira, não? Como eram introspectivas as palavras dos compositores brasileiros... Voltava da faculdade à noite olhando fragmentos da cidade em luzes amarelas, espantado com o encanto de bairros decadentes como São Cristóvão, o antigo lar do Império. Havia uma beleza mórbida no seu estado de confusão. Enfim havia sentido em poetar sobre a vida e a morte de pessoas comuns, os sentimentos mesquinhos das pessoas, o sorriso belo da mulher bela, o sexo de um casal qualquer, o apagar das luzes de um quarto do subúrbio, os meninos jogando bola na rua, as colegiais rindo e correndo até o ônibus, o mendigo dormindo e vivendo assim a sua vida trágica, uma pessoa descobrindo pelo seu corpo o seu próprio desejo, as árvores de ipês, o entardecer de um dia de outono, um gol no último minuto da partida, um dia de carnaval, com as suas fantasias e seu cansaço, o mar, o céu, uma cena, um desenho com pincel, um conto, um ponto, um tonto. Finalmente entendera o porquê eram belos os sambas produzidos nos morros cariocas, nos quais corriam o sangue e a poesia dos povos da senzala e dos deuses da mitologia negra.

Tudo o que era contraposição à vida passou a ser, a partir de então, objeto de seu desprezo. Quando chegasse em casa rasgaria a bíblia sagrada, pois o Sagrado estava agora nos seus orgasmos solitários debaixo dos seus lençóis de solteiro, na recém descoberta música brasileira, no rock inglês, nas páginas de Virginia Woolf, no cinema que retratava o desespero humano e nos gritos vascaínos da arquibancada do velho Mário Filho. As madrugadas insones e os sonos das manhãs de sábado eram, agora, tudo que ele tinha e tudo que ele poderia querer ter. A morte era o ponto final das obras de artistas inconscientes. Estava condenado a ser humano. Nesse novo gênesis, tudo era dor e alegria. Tudo era poesia. E cada lágrima levaria um pouco de si para, paralelamente, reconstruir esse si como uma nota musical de uma composição lapidada e destinada à eterna imperfeição. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário