sábado, 19 de julho de 2014

Entrevista com Pablo Borges, por Gerardo di Paula (Revista Literária da Universidade Nacional, nº 123, 2022, Rio de Janeiro, Brasil)

Essa é a primeira de uma série de cinco partes nas quais foram divididas a entrevista que o escritor Pablo Borges deu ao jornalista Gerardo di Paula, da Revista Literária da Universidade Nacional. Avesso às entrevistas, Borges concedeu muito poucas ao longo de sua vida. Nessa aqui ele esteve particularmente aberto para falar do que pensava e do que sentia enquanto ser humano. Seu contato com a literatura, sua visão da arte e da política, seu desencanto com as instituições, sua relação de rancor com o cristianismo evangélico, a paternidade, a universidade e muitos outros temas aparecem aqui nesse material inédito elaborado pouco antes da morte do único prêmio Nobel que a literatura brasileira possui em toda a sua história.

Os especialistas em sua obra, assim como seus biógrafos, acreditam que essa foi uma entrevista de despedida de Pablo, já que meses depois ele se mataria num hotel da cidade de Congonhas, Minas Gerais. A professora Isadora de Barros Moreira, da Universidade Livre do Ceará, diz que essa entrevista constitui um material chave para entendermos a ontologia da obra de Borges. O também prêmio Nobel Vargas Llosa por sua vez comentou que as palavras de Pablo aqui expostas revelam um homem que estava "convicto de ter visto e vivido de tudo na vida", fazendo referência ao que o próprio Pablo escreveu em sua carta suicida. 

Gerado foi recebido na casa de Borges, no bairro de São Francisco, em Duque de Caxias, num singelo sítio de propriedade do escritor. Barbudo, rodeado por livros e fumando seus lendários maços de Camel, Gerardo diz ter conversado durante seis horas com um Borges sereno e enérgico ao mesmo tempo, sempre muito firme nas suas colocações. "Foram dois dias nos quais fiquei hospedado na casa do escritor, nos quais respirei arte o tempo inteiro, entre cervejas, vinhos, cigarros e muita comida. Se de fato essa foi uma entrevista de despedida, Borges deu um adeus a esse mundo da mesma forma como ele viveu nele: fazendo arte. Sinto-me privilegiado por ter sido o escolhido para isso", diz Gerardo, emocionado.

Os leitores da obra de Pablo Borges terão, pelos próximos cinco meses, a possibilidade de ler as últimas palavras desse que, desde Lima Barreto e Machado, foi o maior de todos os nossos escritores, muito embora ele odiasse essa comparação ("Como diria minha mãe, antes de ela ser crente, comparar a mim com Machado e Barreto é comparar o cu com as calcinhas. Nada a ver", disse ele tantas vezes).

Nessa primeira parte da entrevista, publicamos duas respostas dadas por Borges a Gerado di Paula. Trata-se quase de uma introdução ao que virá pelos próximos meses. Esperamos que os leitores gostem do que lerão. Mesmo que Borges tenha ido, suas palavras, nas poucas entrevistas que deu e nas vozes dissonantes de seus muitos personagens, continuam vivas. Ainda bem...



RLUN: Você é considerado um dos grandes artistas brasileiros dos últimos 50 anos, tendo sido reverenciado por nomes de peso como Chico Buarque, Antônio Torres e Arnaldo Antunes. Como é ser você? Como é carregar o peso de ser um gênio?

P.B.: Interessante que por esses dias eu estava lendo uma matéria do Jornal do Rio sobre mim e a minha obra. Nela, Heródoto Suarez se referiu a mim como o maior artista da primeira metade do século XXI e me definiu como um "supra-humano". O mais legal que eu estava lendo isso enquanto estava no banheiro da rodoviária de Petrópolis, cagando. E enquanto eu me borrava entre peidos e mais peidos, eu fiquei com a expressão "supra-humano" na cabeça. Acho que um supra-humano não deveria cagar, sobretudo no banheiro de uma rodoviária. No entanto, lá estava eu.

Isso de as pessoas acharem que os artistas são pessoas geniais, seres humanos especiais e tudo o mais, isso é bobagem. O artista é um trabalhador. O artista rumina, pensa, repensa, constrói, reconstrói. Arte é trabalho no sentido marxiano do termo, ou seja, no sentido de ser uma atividade que modifica o homem ao mesmo tempo em que modifica algo. O artista modifica a si mesmo enquanto está modificando a linguagem e o próprio mundo no qual as pessoas vivem. Isso é trabalho, não é fruto de uma mente brilhante. Não existem mentes brilhantes. Existem trabalhadores. Eu sou mais brilhante do que o José que construiu a minha casa? Eu sou mais brilhante do que a Maria que lava as minhas roupas toda semana? A prostitua que está, nesse momento, pagando um boquete para um velho bêbado em algum puteiro de Caxias é menos genial do que eu?

Eu não entendo que haja gênios. Dostoievski não foi um gênio. Nem Tolstói, nem Balzac, nem Almodóvar, nem Dalí, nem Bolaño, nem Dante, nem Lima Barreto, nem Remedios Varo, nem Jovelina Pérola Negra, nem Machado de Assis, nem Leminski, nem Mano Brown, nem J.K. Rowling, nem Jane Austen, nem Coppola, nem Gus van Sant, nem etc., etc., etc. Não há gênios, só trabalhadores. O que não deve nos fazer confundir esse fato com a ilusão de que qualquer um é artista. Isso foi uma confusão criada pela arte contemporânea ou pela forma como a arte contemporânea foi recebida. A arte contemporânea colocou que qualquer coisa pode ser arte, não que qualquer coisa é arte. A arte pode vir de qualquer lugar, de qualquer objeto, de qualquer atitude. Mas isso não quer dizer que se eu grito "Au" na rua esse grito faz de mim um artista. Pois não haveria nenhum trabalho nisso. Mas se eu grito "Au" numa reunião de altos executivos, desafiando a lógica utilitária dessa ocasião, e filmo isso, tudo intencionalmente e com a reflexão inerente a todo esse ato, uma reflexão que visa questionar ou problematizar, o que dá no mesmo, a realidade da forma como a entendemos ou como ela se apresenta pragmaticamente a nós, então, e só então, sou artista. E se eu não filmo isso, então não sou artista, mas sim um revolucionário, mas não um artista, pois eu não comuniquei nada a ninguém e a arte comunica, sempre, comunica, tem que comunicar, não há arte solitária, senão punheta seria arte, e não é, a não ser que eu toque uma punheta em um palco ou em uma paisagem urbana nas pernas lisas de uma mulher, esparramando a minha porra na sua perna lisa, deixando meu leite descer na perna lisa de uma bela mulher numa paisagem urbana, numa praça, por exemplo.

E por que raios estou falando de punheta numa entrevista para uma revista de literatura? Simples, porque estou sendo artista agora, estou fazendo arte agora, na sua frente, aqui, agora, estou resignificando a forma que as pessoas têm de dar entrevista, falando de punheta pra você. Isso é trabalho, pois requer reflexão, coragem, leitura, desapego, filosofia. E isso não faz de mim melhor do que ninguém. É só trabalho, trabalho artístico, político e apolítico ao mesmo tempo, pois toda arte é militância, mesmo sendo uma atividade que possui fim em si mesma.

RLUN: Fale mais um pouco sobre essa relação entre arte e militância.

P.B.: Não há relação entre arte e militância. A arte é militância. A arte é a ação humana por excelência, é a humanidade no seu estado mais puro e político e apolítico ao mesmo tempo. Pensa no cosmococa de Oiticica. Pensa na nona sinfonia de Beethoven. Pensa no Sandman de Gaiman. Pensa no Aleph de Jorge Luís Borges. Isso é militância pura, todas essas obras e todas as outras obras já criadas e as que ainda não foram criadas. Pensa: vivemos num mundo no qual o racionalismo, a lógica impera. Você tem que trabalhar, pagar contas e trabalhar e pagar contas e trabalhar e pagar contas para depois, depois de uns, digamos, 50 anos, você descobrir que está com câncer em algum lugar do corpo, mesmo que você nunca tenha fumado, mas você pode ter bebido muito kisuco na infância - aqueles corantes amarelo e vermelho são um veneno, poucos sabem disso - e morrer tendo trabalhado e pagado contas, e as que você não pagou seus filhos pagarão, caso você os tenha. Olha a merda que é isso tudo! Aí vem um escritor argentino e escreve um texto sobre um ponto do universo o qual contém todos os demais pontos do universo! Aí vem Antunes e diz "Tire a mão da consciência e meta no cabaço da cabeça!" Aí vem Jorge Mautner e diz "No meu corpo sangue não corre não/Corre fogo e larva de fulcão"! É como se eles tivessem dizendo, mesmo sem querer, mas dizendo "Foda-se essa porra toda! Vou fazer arte!" A arte é a antilógica, o anticapital, a anticivilização, a aberração mais doce e mais humana do mundo. É política pura isso tudo.


Remedios Varo, por exemplo, tem um quadro "El paraíso de los gatos" que é a suprema militância, nada mais militante que aquele quadro, nada foi mais revolucionário que aquele quadro, nem a Revolução Industrial. Essa obra mostra uma paisagem campestre com torres e brinquedos, com árvores de um verde lindo - que só Varo poderia ter pintado - e com um rio ao fundo. Por essa paisagem se espalham gatos de várias cores, com aquele jeito que só os gatos possuem, aquela cara de nada, aquele deitar-se despreocupado mesmo que o mundo esteja acabando, aquela paz que só os vagabundos possuem, que só a vagabundagem felina constrói. Quando os gatos querem dormir eles dormem. Quando querem seu carinho eles se enroscam em você. Quando querem comida, miam. E dormem, e dormem, e dormem. Quando acordam, brincam. Quando veem, caçam. Quando se cansam, bocejam e se lambem. E contemplam, sobretudo contemplam. Se quisermos ser felizes e revolucionários, devemos aprender com os gatos. Eles não têm grandes aspirações na vida. Os gatos entendem que a vida é o que ela é, e que devemos aprender a nadar nesse rio sem nos deixar levar de todo, mas seguindo seu fluxo, aceitando, como diria o poeta, "a dor e a delícia de ser o que é". Quer coisa mais militante que isso? Seria o fim das terapias e do dinheiro que se gasta com elas, assim como das religiões e dos remédios rivotril e dos prozac. O paraíso dos gatos é uma sociedade revolucionária, a pregação da própria revolução. Quem diz que arte e militância são coisas opostas, não entende nada, absolutamente nada de arte, nem de política. Uma idiota desses já nasceu morto. 

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