domingo, 5 de janeiro de 2014

O estranho mundo dos shoppings




Houve uma época da minha vida na qual eu adorava ir ao shopping. Ir ao shopping para passear, andar, ver as coisas e as pessoas. Só de entrar pelos portões automáticos e ver aqueles pisos sempre muito luxuosos, em combinação com aquele monte de vidro das vitrines das lojas, os designs dos tetos, em geral bastante modernos (muito embora não faça ideia do que seja moderno em arquitetura), o burburinho de vozes e o barulho dos passos da multidão de consumidores. Acho que era isso tudo (isso é tudo?) que me fazia entrar nos shoppings e achar aquilo tudo um máximo. Não que eu fosse consumista desde sempre. Eu sempre consumi em shoppings basicamente cinema e comida. E em comida podem ler Bob's. Durante muito tempo meu ritual de sábado a noite era ir ao cinema (de preferência na última sessão) e com um lanche do Bob's nas mãos, que eu pedia para a viagem só para poder levar pra sala de cinema e comer vendo filme. Isso me fazia muito bem, mas muito bem mesmo. Me sentia eu; me sentia livre, jovem. Enfim, eu sentia.

Meu gosto pelos shoppings era algo tipo o shopping pelo shopping. Mas isso começou a mudar, creio eu, quando vi uma professora minha problematizar os shoppings na minha frente, numa orientação de pesquisa. O que ficou registrado na minha cabeça dessa problematização é a informação que ela me deu sobre o porquê de os shoppings, em sua maioria, serem locais fechados.  Segundo ela, o motivo era simples: fazer com que as pessoas perdessem a noção do tempo e se concentrassem nas compras. Eu nunca tinha parado pra pensar nisso. Mas quem de nós nunca perdeu a noção da hora no interior desses templos do consumo? Quem nunca saiu de um shopping e fez uma das seguintes colocações: "caramba, já é noite!"; "nossa, está chovendo!"; "puxa vida, choveu!"? Mas como quase tudo na vida, a gente aprende a naturalizar as coisas; ou, pior, tem coisas que nunca se tornam problemas (no sentido filosófico do termo) para nós, em nenhum momento.

Mas, olhando de forma nua e crua, como um etnógrafo europeu chegando numa tribo do interior da Melanésia, um shopping é um lugar fechado, de certa forma isolado do resto da cidade, no qual as pessoas vão pra gastar dinheiro e andar em círculos (não necessariamente nessa ordem). Óbvio que se nós estranharmos tudo que nos é familiar, quase todas as coisas da nossa existência irão nos parecer bizarras, mesmo que momentaneamente. Mas penso que é importante fazermos reflexões sobre nossos próprios costumes, pois isso pode ser, de alguma forma, libertador. Não que isso nos torne mais felizes. Às vezes pensar/problematizar simplesmente nos dá a consciência das nossas correntes e do fato de que nós não podemos nos libertar delas, ao menos não na nossa geração, a não ser pelo espírito. Problematizar, contudo, nos traz de volta à nossa condição criativa. Somos os únicos animais no mundo que possui a capacidade de criar símbolos. Isso não é pouco.

A questão, então, é nos perguntarmos o porquê que a gente se presta ao papel de sair de casa e ir a um lugar (fechado, não se esqueçam) que se destina única e simplesmente ao consumo, andar em círculos e descobrir em cada loja uma coisa útil (útil?) para comprar, estourando o limite do nosso cartão. Por que fazemos isso? O que queremos num shopping? Por que queremos? Queremos de fato alguma coisa ou simplesmente não temos ideia melhor? Perdemos a capacidade de ter ideias melhores? Algum dia nós tivemos essa capacidade? Temos opção em nossa cidade? Qual? Quais?

No Rio de Janeiro, por exemplo, as opções são muito poucas, na minha opinião. Pra quem é de fora (e pra alguns cariocas boçais), estamos na cidade maravilhosa.  Mas o Rio é uma cidade cara, desorganizada, com um transporte ineficiente e com uma concentração absurda de ofertas culturais numa única região, a toda poderosa (apesar de não muito rica, se é que ainda é rica) Zona Sul. Se eu quiser ir a um bom teatro, por exemplo, terei de ir a essa região, que fica a mais de 60 km do bairro onde moro, a charmosa e encantadora Campo Grande, terra dos milicianos. Transporte público, só até meia-noite, senão terei de dormir na casa de amigos, o que não curto. Fora o preço do ingresso, que, tirando um CCBB da vida, custa o olho da cara. Algo análogo ocorre com os cinemas de rua. Acho que a Zona Sul é o único lugar onde ainda existem bons cinemas de rua. Nas demais regiões, ou esses espaços viraram cinemas de filmes pornôs (adoro filmes pornôs, mas ainda tenho em mim alguma dignidade que me impede de ir a um cinema ver filme pornô) ou viraram igreja. O cine Santa Tereza, em Santa Tereza, e o Odeon, no Centro, são as únicas exceções das quais me recordo.

E pra onde foram os cinemas? Adivinhem? Pros shoppings, óbvio. Além do estacionamento dos shoppings (em geral caríssimos) e das promoções que você acaba comprando num shopping, você ainda gasta uma grana preta no ingresso do cinema, na pipoca e no refrigerante. Cinema hoje em dia é caro. Se você for toda semana, fodeu, vai ter que arranjar mais um emprego só pra se dar o luxo de ver filmes. Aí chegamos à trágica conclusão de que no Rio não há muito como fugir dos shoppings. Eu não sei vocês, mas acho essa descoberta desoladora.

O problema dos shoppings pra mim é que eles são a anticidade. Ir ao shopping é sair da cidade e entrar num beco de ofertas ("compre batom, compre batom..."). Claro que no capitalismo toda cidade vira uma vitrine. Mas se você vai a um cinema de rua, por exemplo, ao sair dele você vê de cara a rua, as calçadas, os postes, os carros, o céu. É como se a gente se lembrasse, mesmo que inconscientemente, de que estamos vivos, e de que existe algo além do consumo na vida. No ritual circulatório dos shoppings, a gente perde essa dimensão, muito embora as pessoas se sintam super vivas nesses lugares. Mas canso de ver nos shoppings casais que não interagem, não se olham, não conversam de todo; vejo também muitos pais com filhinhos lindos no colo ou no carrinho, mas que não dão a mínima atenção pros bacuris. Afinal de contas, se estamos ali pra consumir e andar na romaria capitalista nossa de cada dia, então, pra quê interação?

Não sou daquela esquerda que acha que sabe o que é melhor para as pessoas. Tampouco penso que as pessoas são burras, alienadas, e que eu, que conheço o pensamento de Marx, Weber, Simmel, Durkheim; que leio Bolaño, Leminski e sei um cadinho de Nietzsche, sei por onde o mundo deveria caminhar. Só acho que a crítica é fundamental na vida humana, sobretudo a autocrítica. E hoje me dei conta, finalmente, depois de ter passado metade de meu dia de sábado num shopping,  de que não faz o menor sentido eu sair de casa para ir a um shopping se eu tiver uma outra opção do que fazer. Acho que os shoppings são a expressão mais forte de como o capitalismo mina a criatividade humana no seu íntimo, tirando de nós a capacidade de expressar o nosso sentir. Trata-se de um desconforto puramente pessoal. Não acho que seja possível fazermos uma revolução; tampouco que os shoppings são o grande mal que assola a humanidade. Penso nos shoppings como efeito de uma sociedade profundamente mecanicista, na qual estamos todos cheios de objetivos, boa parte dos quais nós não escolhemos de fato. A gente nasce, não percebe que cresce, trabalha feito mula a vida inteira, não tem muito tempo pra pensar na nossa existência e, por fim, morre.

Concordo com Norbert Elias quando esse sociólogo alemão disse que ninguém inventou a sociedade, nem um grupo organizado, tampouco uma pessoa isolada. Para ele, a sociedade é fruto de um processo espontâneo e difuso de formatação das mentalidades e dos comportamentos. No Ocidente isso resultou numa profunda individuação, na qual o "eu" foi forjado e é vivido como realidade. Esse foi o "processo civilizador" que resultou na elaboração da modernidade. Salvo os eurocentrismos das análises de Elias, penso que ele tem razão. Acho que o capitalismo é fruto de uma explosão de relações humanas, desencadeadas numa rede que foi se tornando mais complexa, até desembocar no Estado e no capital. À sua maneira, o shopping reforça e reatualiza esse processo, com a legitimidade dada pelas pessoas. Por isso acho pouco possível que ocorra uma revolução no mundo, muito embora o meu maior desejo fosse poder viver numa sociedade na qual o trabalho fosse poetar, ler, trepar, se descobrir no eterno fluxo do existir, e não viver produzindo riqueza para os outros, como vivo hoje.

Acredito, contudo, que a rebeldia tem ao menos a chance de nos mostrar a miséria na qual vivemos, assim como o ímpeto de criatividade que temos ou podemos ter. As pessoas querem o capitalismo e gostam dele. Mas se elas estivessem realmente tão bem assim, por que os livros de autoajuda vendem tanto? Se estamos bem, porque precisamos de autoajuda? Quem precisa da salvação de Cristo? Por que tomamos ansiolíticos? Por que estamos enfartando tão cedo? Por que estamos nos tornando hipertensos? Por quê?

Estranhar a sua própria sociedade é cavar cavernas dentro de seu próprio peito, criando abismos entre você e as pessoas, à maneira de Policarpo Quaresma. Cabe a mim construir pontes nesses abismos, senão eu enlouqueço...  

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