terça-feira, 3 de março de 2015
O Retrato de Dorian Gray: horror, decadência e fascinação pela juventude
Nessa última segunda-feira, dia 02/03/15, em pleno trem da SuperFria, na belíssima Rio-de- Janeura-dos-transportes-públicos-horrorosos foi-se mais uma das zilhões de lacunas da minha vida literária: li finalmente a obra prima do grande escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900), O Retrato de Dorian Gray. A edição que utilizei para a minha leitura foi a de 2011 da editora Hedra, traduzida por nada mais, nada menos que João do Rio (1881-1921), autor de A Alma Encantadora das Ruas, livro classicão da literatura brasileira, que eu não li (eu avisei que tinha zilhões de lacunas literárias...) e com texto de introdução de um cara mega inteligente chamado Ricardo Lísias (Doutor em Literatura pela toda poderosa USP, universidade da cidade sem água).
A tradução de João do Rio é muito interessante, apesar de um bocado difícil, pois ele usa muitos termos arcaicos (por assim dizer) do português falado no Brasil. A julgar pelo texto de Lísias, João era muito fã de Oscar Wilde e tentou disseminar por aqui o decadentismo na literatura. Dada a importância histórica e literária de uma figura como a de João do Rio, essa tradução é, por si só, uma relíquia.
Como não poderia deixar de ser, o impacto que tive com essa obra foi enorme. Três personagens são centrais nessa trama: Lord Henry Wotton, aristocrata, desocupado, misógino, inteligentíssimo, irônico e egocêntrico; Basil Hallward, artista de razoável talento, amigo e crítico da postura de Henry, homossexual e introspectivo; e Dorian Gray, jovem de extraordinária beleza, cabeça-oca e objeto de estudo (literalmente) nas mãos de Henry Wotton.
Basil pinta um retrato de Dorian. Nesse retrato o artista coloca todo o seu talento e amor pelo jovem Dorian. O resultado é um quadro extraordinariamente belo. Henry, contudo, ao ver o retrato, coloca uma pulga enorme atrás da orelha de Dorian: ele um dia envelhecerá, enquanto o retrato permanecerá intacto, belo, sublime, sinistro, em bom carioquês. Dorian pira com essa constatação de Henry e deseja, do fundo de seu coração, que ele permaneça jovem enquanto o quadro envelheça. A partir daí uma ligação sobrenatural e antinatural se estabelece entre Dorian e seu retrato: os anos passam, Dorian permanece novinho em folha, mas a sua imagem no quadro entra em profunda deterioração (a imagem no quadro, não o quadro, leia-se bem).
Seguindo os conselhos de Henry, Dorian se torna uma pessoa extremamente narcisista e hedonista, tocando o foda-se pra tudo e pra todos e vivendo somente para o seu próprio deleite, seguindo seus próprios impulsos e desejos. Isso gera em Dorian uma decadência moral que passa a ser retratada no quadro, que só ele vê, pois esconde de todas as pessoas logo assim que ele percebe a estranha ligação causada pela sua própria vontade de não envelhecer.
A fascinação que o Ocidente tem pela juventude é, em Wilde, o pano de fundo de um livro que coloca a decadência no seu aspecto físico e moral na vida da personagem que nomeia sua obra-prima. Essa decadência parece ser inevitável, o destino fatal dos seres humanos. Tentando escapar de sua faceta material, Dorian mergulha de cabeça na decadência espiritual para, no fim, ser destruído pelas duas. Trata-se de uma história macabra, que vai se tornando mais sombria ao longo das páginas, com parêntesis de tiradas espirituosas de Lord Henry.
Uma questão que, a meu ver, grita em O Retrato de Dorian Gray é o lugar que a juventude ocupa em nossa cultura ocidental. A beleza por aqui não é só um questão de cor de pele, corpo esbelto e tipo de cabelo. É também e, talvez acima de tudo, uma questão de ser ou não jovem. Para nós, ao que parece, ser belo e estar vivo é, de fato, ser jovem. A vida no Ocidente parece muitas vezes terminar aos quarenta, ao contrário do velho ditado.
De fato somos animais que envelhecemos e morremos. Será que não poderíamos ver isso simplesmente como natureza ao invés de decadência? Ou de fato a juventude é o que há de mais belo mesmo na vida? Nesse caso, cabe a nós aceitarmos isso, para doer menos. É isso mesmo?
Seja como for, Wilde mostrou com esse livro uma leitura forte e pessimista da vida humana. Ele carrega esse livro com várias frases ótimas, que são lançadas como dardos no leitor, nos fazendo pensar sobre o que foi dito. Lord Henry é a personagem que ele mais usa para fazer isso, mas o narrador também é usado pelo autor para esse fim. O filme O Retrato de Dorian Gray (2009) de Oliver Parker muda bastante o enredo, comprometendo um pouco história, mas mantendo seu sentido e sua levada de terror. Recomendo ambos, seja em qualquer ordem, muito embora talvez seja mais interessante ler o livro antes para que o leitor crie as próprias feições físicas das personagens. A nossa imaginação é parte importante da leitura.
P.s.: O site adorocinema.com desceu o sarrafo no filme de Parker. Pra quem quiser dar uma lida na crítica, só conferir o link ao lado: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-136408/criticas-adorocinema/
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