quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Benjamim: a marca de um bom aluno




Hoje terminei a leitura do romance Benjamin (1995), do grande Chico Buarque de Holanda. Como menino nascido e criado na bombástica Duque de Caxias, Baixada Fluminense, resíduo urbano da megalópole "Rio de Janeura", só fui conhecer as composições do Chico quando já estava na faculdade, sob a influência de todo aquele clima burguês de jovens-brancos-de-classe-média-cult-bacaninhas que as universidades brasileiras têm. Ouvir Chico até então era coisa de velho para mim. Pirei quando ouvi Cálice pela primeira vez. Como ainda era evangélico nessa época (todo o mundo tem alguma mácula no passado, então não me julguem, per favore), fui tomado por aquela composição singularmente profana e genial que se apropriava de forma brilhante do episódio bíblico pré-crucificação de Jesus, fazendo uma crítica refinada e imensamente criativa da Ditadura Militar, período no qual o cale-se era a regra (hoje é tão diferente?).

Dali em diante construí um dos pilares do meu modesto conhecimento sobre música, um axioma na minha visão de arte brasileira, que exponho a seguir, logo após os dois pontos: Chico é foda, é gênio, é sinistro, é incrível. (Quatro axiomas em um, minha construção linguística pobre inspirada na ideia da santíssima trindade). Não é qualquer artista que cria o que o Chico criou na música. Mas até aqui falei do Chico compositor. Essa postagem, contudo, é pra falar de um outro Chico, o qual tenho a impressão de que é menos falado: o escritor. Benjamin foi o primeiro livro que li do Chico até agora. E, diferente de quando ouvi Cálice, fiquei com uma baita de uma interrogação sobre essa obra, quase que um mal estar.

O argumento desse romance é o seguinte: Benjamin Zambraia é um ex-modelo fotográfico, outrora bonitão, jovem, cheio de vida, mas hoje um homem em decadência profissional, financeira e física, que passa a projetar na jovem e bela Ariela uma velha fixação sua por uma mulher, Castana Beatriz, seu grande amor de muitos anos atrás. Benjamin acha que Ariela é filha de Castana, pois aquela lhe lembra muito fortemente esta. Daí ele passar a procurá-la com muito afinco nos encontros e desencontros entre os dois ao longo da história do livro, que tem uma outra personagem importante: Alyandro, o ex-puxador de carro, literalmente um filho da puta, e hoje um candidato a um importante cargo político; ele coteja Ariela sempre que a vê.

Chico usa nesse romance a difícil técnica de escrita literária do fluxo de consciência, imortalizada por  nomes de peso da literatura mundial como James Joyce e Virginia Woolf há várias décadas atrás. Ele vai passando pelo cotidiano dessas três personagens (Benjamin-Ariela-Alyandro) ao longo da história, dando uma ênfase um pouco maior à personagem que nomeia o livro. Há partes geniais no romance, como a que ele narra a história da Pedra que fica atrás do edifício no qual Benjamin mora; ou a que ele narra a busca de Benjamin por uma antiga foto sua na qual ele está junto com Castana Beatriz. Percebe-se que cada parte do livro foi cuidadosamente escrita, pensada, lida, relida e reescrita, coisa que só pode ser feita por quem entende de literatura. E só entende de literatura quem lê. Chico lê, e lê muito, sem dúvida alguma.

Por isso fiquei com a impressão de que em Benjamin Chico fez direitinho o dever de casa. O livro é bem escrito para zaralho, redondo, com uma sinuosidade fluida, como numa sinfonia. Mas não acredito que com esse livro Chico tenha dado uma contribuição substancial à literatura brasileira. Fiquei com a impressão de que esse romance é um livro bem escrito, com uma história interessante, razoavelmente criativa, e ponto. Não vi nele algo que me remetesse à genialidade do Chico compositor, muito embora haja partes geniais nesse romance, como as que citei acima. O final da história é menos surpreendente que inverosímel. Ariela coloca Benjamin numa situação que deixa o leitor se perguntando por que cargas d'água ela fez isso. Fica sem sentido até. Mesmo assim, há uma beleza muito grande no desfecho de Benjamin, no qual Chico costura o início com o fim do romance, que não é de todo o fim de Benjamim Zambraia, pois a vida dele já tinha perdido o sentido, o espírito; o recheio.

Talvez seja uma pensarmos os rumos da literatura brasileira hoje; ou, melhor dizendo, os caminhos que ela tem percorrido, o que tem sido feito nela de relevante, quais contribuições tem sido de fato dadas. Quando eu leio Roberto Bolaño, por exemplo, me parece claro que seus livros são algo novo e belo para a literatura chilena, assim como Borges é para a literatura argentina, Llosa é para a literatura peruana e Marques é para a literatura colombiana. E na literatura brasileira, o que temos? Só me vem na cabeça Milton Hatoum, com o seu belíssimo Relatos de um certo Oriente, que é excelente na sua narração, nos fios tênues e delicados que ele vai juntando, um a um, ao contar a história de uma família de origem árabe erradicada em Manaus. Mas em que sentido Hatoum é uma contribuição para a nossa literatura? Ele deu de fato essa contribuição?

Como ainda estou engatinhado nessa de pensar literatura como um todo e a literatura do nosso Brasil varonil em particular, não vou dar nenhum pitaco agora, somente vou lançar as minhas questões para o nada. Mas acho que dá para afirmar que Chico Buarque, pelo menos o Chico de Benjamin, não contribuiu para elevar a nossa literatura a um patamar desconhecido. Parece-me que na música ele continua fazendo isso, a julgar pelo seu Bolero Blues. O que não pode é nós, leitores, projetar no Chico escritor o Chico cantor. Um a gente sabe que é foda. O outro parece que não é, pelo menos ainda não.


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