quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Música com cheiro de passado



Fazia algum tempo que eu não ouvia uma música que me tocasse tanto quanto Hold me up, da banda estadunidense Live. A primeira vez que ouvi essa canção foi em 2008, no cinema, vendo a excelente comédia Pagando bem que mal tem? (Jack and Miri make a Porno, 2008). A música começou a tocar quando Jack e Miriam, amigos desde os tempos de escola, estavam numa cena de sexo para um filme pornô muito trash que eles estavam fazendo para ganhar dinheiro e se livrarem das muitas dívidas que tinham.

Ao rever esse filme há algumas semanas atrás eu novamente tornei a encontrar essa canção. E o efeito que ela teve sobre mim foi, de novo, muito bom, muito embora o som aqui de casa não seja nem de longe tão maneiro como o do cinema.  Hold me up me soa como um rock muito americano e muito final dos anos 80 e início dos anos 90, com teclado, guitarra e um vocal poderoso, semelhante ao que bandas como Van Halem faziam. E mesmo não sendo um crítico musical de fato, com conhecimento verdadeiro sobre música (aliás não sou crítico de verdade de nenhuma arte), acho que bandas de rock que usam teclado têm um profundo cheiro de Estados Unidos e de anos 80.

E aí mora o que muito provavelmente é a chave para o encantamento que tive com essa música: os anos 80. Nasci em 1986. Completei em 2015, no último de 13, 29 carnavais. Apesar de a minha maior referência de música na minha adolescência ter sido o rock grunge e o metal do Iron Maiden, os teclados dos anos 80 (ou nos anos 80?) sempre formaram uma trilha sonora constante na minha vida, sobretudo na minha infância e adolescência. Teclado em música de rock, pra mim, tem cheiro de passado, daqueles acontecimentos que foram e não são mais; daquilo que um dia fui e que hoje está muito diferente, e que vai ficar ainda mais diferente, até não ser mais de todo.

Em determinados momentos da minha vida (isso só acontece comigo?) eu tomei consciência de que o tempo estava, de fato, passando. Esses momentos são para mim como se uma enchente invadisse a minha casa, ou como se eu tivesse tomado um soco ao passear na rua, sem mais nem por quê. Achava um máximo quando estudava os poetas do arcadismo brasileiro na escola e lia que eles falavam do carpe diem, da efemeridade da vida e tudo o mais. Era tudo poético, lindo nas páginas do livro de literatura. Parecia que a danada da efemeridade nunca sairia dali das páginas do livro. Até que a escola acabou e veio a faculdade; e namoros malogrados; e perenes problemas familiares; e depois o mercado de trabalho; e agora os 29 ou os quase 30. E com isso a sensação de que perdi algo que ficou no caminho, algo que nunca mais vou recuperar. E que não soube usar direito esse algo.

Parece loucura eu me sentir velho com 29 anos de idade. Mas para mim, nesse momento, parece algo muito compreensível. Já não tenho mais a inocência e a energia de antes. Há uns 15 anos atrás eu não precisava de muito para me sentir vivo e esperançoso. Hoje já não é mais assim. E isso caiu na minha cabeça enquanto meu aniversário se aproximava. Não faço ideia do que farei com os meus 29. Só sei que muitos dos que cresci vendo e ouvindo já se foram, muitos em 2014, muitos rostos que eu via na TV e muitos pensamentos que eu lia nos livros. E que eu mesmo, daqui há algumas décadas, “passarinho” (e o grande Mário também já se foi). Isso me apavora.

Hold me up é a lembrança de minhas adolescências, das que vivi e das que não vivi, das esperanças que sentia e dos sucessos que nunca tive; dos amigos e amigas que fiz e da banda de rock que nunca formei; dos amores que vivi em prazer e dor e dos que vivi em sonho; dos carnavais que nunca pulei. Toda vez que ouço essa música sinto um misto de emoções e uma aura enorme de passado. A miséria humana da morte, já cantada muitas vezes por muitos e muitos poetas, têm me sondado constantemente. A passagem do tempo é cruel. Mais cruel é senti-la.

O que, então, faremos com isso? 

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