Eu acho que a cultura brasileira
precisa ser feminilizada. Há algum tempo eu tenho tido essa ideia, que
certamente não é nova, mas também é minha.
Eu
acho os homens brasileiros extremamente rústicos, brutos, quase vikings (e peço
licença para um leve etnocentrismo greco-romano). A brutalidade do homem
brasileiro está na sua postura diante da própria vida, na sua estética do
dia-a-dia. A postura corporal dos homens no Brasil marca uma masculinidade
exacerbada, a meu ver. Lógico que há todo tipo de homens no Brasil. Os fracos e
mirrados, como eu; os nerds; os lerdos (uma boa parte desses são nerds); os
espiritualmente andróginos; os que são andróginos de fato; enfim, há vários,
infinitos e inclassificáveis tipos de homens por aqui.
Mas
um tipo de homem predomina na cultura brasileira: o macho. Aquele cara que anda
coçando o saco, cuspindo no chão e chamando as mulheres na rua de
"gostosas". Aquele que, ao olhar para uma mulher, dificilmente
enxerga algo mais do que uma boceta com pernas e com alguma inteligência e
sentimentalidade. Aquele que faz questão de dizer que é pegador, que come
muitas mulheres, e que, por sinal, comeu uma na noite passada. Há os que ainda
permanecem na eterna adolescência e afirmam, quando podem, que têm o pau grande
e roxo. E que são viris, que aguentam várias numa noite e que bebem demais,
"chapam". Tudo isso como um conjunto de símbolos concretos de que
eles são machos, fodões, de verdade.
Esse
tipo de homem no Brasil pode não ser maioria numérica, mas é maioria simbólica,
cultural. Eles encarnam um ideal cruel de homem e de masculinidade que vigora
entre nós. Ele é a base para homens serem aceitos e legitimados como
insensíveis e infiéis. E quem sofre com isso? Mulheres, gays e, não nos
esqueçamos, dos heteros que não correspondem a esse ideal. Muito orgulhosamente
faço parte do último grupo. E luto pelos direitos de existência plena dos dois
primeiros grupos.
Por
esses dias eu fui assistir ao filme "Somos tão jovens", e notei que,
nas pouquíssimas cenas nas quais a homossexualidade de Renato Russo é mostrada,
o público no cinema ensaiava uma risada irônica, debochada, desdenhosa. Inclusive
mulheres. Tipo aquela risada que diz "hum, seu viadinho de merda...".
Hoje no trabalho (sou professor da rede estadual de ensino do Rio), vi um grupo
de colegas professores rindo ao dizerem que ser homossexual não é algo natural.
Estavam satisfeitos em expressarem a sua heterossexualidade diminuindo a sexualidade
alheia. E, no fundo, com aquelas risadas "hohohohoho" super másculas,
quase papainoélicas...
Quanto
a mim, eu penso que esse país está precisando de mais cores. "Cores de
Almodóvar, cores de Frida Kahlo, cores...". Cores nas roupas, cores na mente,
cores na alma. Mais suavidade aos brasileiros homens. Mais delicadeza, mais
fineza... Mais lucidez. Mais feminino. Essa estética masculina é pobre demais,
unidimensional demais, chata demais. Cavernosa. Hipócrita. E, acima de tudo,
antidemocrática. Precisamos de homens que acompanhem a Marcha das Vadias com
espírito de vadia, se colocando no lugar da mulher estigmatizada nesse país,
simplesmente por ser mulher, por ser livre. Precisamos de homens que se
preocupam se suas mulheres gozaram, que se esforcem por isso. E que conversem
sobre uma brochada com seus amigos. Ou que recusem sexo, quando não estiverem
afim...
Enfim,
precisamos de homens menos másculos... e mais homens...

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