terça-feira, 4 de junho de 2013

Menos masculinidade, mais humanidade



Eu acho que a cultura brasileira precisa ser feminilizada. Há algum tempo eu tenho tido essa ideia, que certamente não é nova, mas também é minha.
                Eu acho os homens brasileiros extremamente rústicos, brutos, quase vikings (e peço licença para um leve etnocentrismo greco-romano). A brutalidade do homem brasileiro está na sua postura diante da própria vida, na sua estética do dia-a-dia. A postura corporal dos homens no Brasil marca uma masculinidade exacerbada, a meu ver. Lógico que há todo tipo de homens no Brasil. Os fracos e mirrados, como eu; os nerds; os lerdos (uma boa parte desses são nerds); os espiritualmente andróginos; os que são andróginos de fato; enfim, há vários, infinitos e inclassificáveis tipos de homens por aqui.
                Mas um tipo de homem predomina na cultura brasileira: o macho. Aquele cara que anda coçando o saco, cuspindo no chão e chamando as mulheres na rua de "gostosas". Aquele que, ao olhar para uma mulher, dificilmente enxerga algo mais do que uma boceta com pernas e com alguma inteligência e sentimentalidade. Aquele que faz questão de dizer que é pegador, que come muitas mulheres, e que, por sinal, comeu uma na noite passada. Há os que ainda permanecem na eterna adolescência e afirmam, quando podem, que têm o pau grande e roxo. E que são viris, que aguentam várias numa noite e que bebem demais, "chapam". Tudo isso como um conjunto de símbolos concretos de que eles são machos, fodões, de verdade.
                Esse tipo de homem no Brasil pode não ser maioria numérica, mas é maioria simbólica, cultural. Eles encarnam um ideal cruel de homem e de masculinidade que vigora entre nós. Ele é a base para homens serem aceitos e legitimados como insensíveis e infiéis. E quem sofre com isso? Mulheres, gays e, não nos esqueçamos, dos heteros que não correspondem a esse ideal. Muito orgulhosamente faço parte do último grupo. E luto pelos direitos de existência plena dos dois primeiros grupos.
                Por esses dias eu fui assistir ao filme "Somos tão jovens", e notei que, nas pouquíssimas cenas nas quais a homossexualidade de Renato Russo é mostrada, o público no cinema ensaiava uma risada irônica, debochada, desdenhosa. Inclusive mulheres. Tipo aquela risada que diz "hum, seu viadinho de merda...". Hoje no trabalho (sou professor da rede estadual de ensino do Rio), vi um grupo de colegas professores rindo ao dizerem que ser homossexual não é algo natural. Estavam satisfeitos em expressarem a sua heterossexualidade diminuindo a sexualidade alheia. E, no fundo, com aquelas risadas "hohohohoho" super másculas, quase papainoélicas...
                Quanto a mim, eu penso que esse país está precisando de mais cores. "Cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo, cores...". Cores nas roupas, cores na mente, cores na alma. Mais suavidade aos brasileiros homens. Mais delicadeza, mais fineza... Mais lucidez. Mais feminino. Essa estética masculina é pobre demais, unidimensional demais, chata demais. Cavernosa. Hipócrita. E, acima de tudo, antidemocrática. Precisamos de homens que acompanhem a Marcha das Vadias com espírito de vadia, se colocando no lugar da mulher estigmatizada nesse país, simplesmente por ser mulher, por ser livre. Precisamos de homens que se preocupam se suas mulheres gozaram, que se esforcem por isso. E que conversem sobre uma brochada com seus amigos. Ou que recusem sexo, quando não estiverem afim...

                Enfim, precisamos de homens menos másculos... e mais homens...

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