sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Leituras de Gelo e Fogo






Depois de um tempo sem escrever nesse blog (e meus leitores inexistentes já devem estar acostumados com os meus intervalos que duram eras), uso essa postagem para falar da minha mais nova paixão literária. Trata-se da leitura de livros fantásticos, mormente voltados para o público infanto-juvenil. No ano passado li vorazmente durante 4 meses todos os livros da série Harry Potter e simplesmente me encantei pelo universo criado por J.K. Rowling. Também continuei as minhas leituras de revistas em quadrinhos do Hellblazer Constantine, além de ter lido também o excelente V de Vingança do magistral Allan Moore. Para quem passou todo o tempo de faculdade lendo autores como Dostoievski, Tolstoi, Virginia Woolf, Giovanni Verga e Arnaldo Antunes, o caminho para a literatura fantástica (será esse o nome?) parecia ser improvável. Mas aconteceu. Confesso que não quero sair tão cedo desse caminho.

Não sei dizer qual seria a origem desse meu ímpeto pelo mágico na literatura. Talvez seja a chatice da minha vida profissional cercada de obrigações burocráticas num país que se recusa a permitir que o professor ensine; ou a rotina de alguém que é obrigado a trabalhar exaustivamente para fazer uma grana razoável e pagar suas contas. A monótona sinfonia do cotidiano de um adulto no capitalismo talvez seja a nascente de um rio de interesses pelo extraordinário, tanto no esporte, como na TV, no cinema, na religião e na literatura. Queremos ser surpreendidos em espetáculos o tempo inteiro. Queremos se entretidos em quaisquer lugares que freqüentamos fora do horário de trabalho. Um filme cujo desenrolar é lento é considerado por muitos um filme chato e sem graça. Quem tem paciência para assistir a três horas de Kurosawa ou de Sergio Leone? Quem tem a capacidade de perceber a beleza da fotografia de uma cena ou o desenrolar de uma música? Quem tem coragem de pegar um livro de 800 páginas para viajar nele?

É nesse ponto que os meus questionamentos começam a serem, eles mesmos, questionados. Explico-me: é válido dizer que hoje não temos paciência para ler um livro longo? Quantos adolescentes de 12, 13 anos leram e releram as mais de 1000 páginas dos livros sobre bruxo Harry Potter? Como professor do Ensino Fundamental eu digo, sem medo: muitos! Não somente as páginas de Potter, mas Jogos Vorazes, Percy Jackson e outros livros do tipo têm levado uma geração taxada de desinteressada por professores de várias disciplinas a lerem muitas e muitas páginas de livros. E não venha me dizer que se trata de uma literatura “menor”, construída para distrair uma sociedade sem capacidade de atenção para questões mais profundas sobre a humanidade e a arte. É literatura. Tem uma narrativa, uma história se desenrolando. E ponto.

É espantoso ver como a realidade é mais complexa do que imaginamos ser. Beleza, vivemos no mundo do imediato, do instantâneo, das enxurradas de informações, da falta de tempo, dos pais offlines, dos viciados em trabalho, dos adolescentes hiperativos e tudo mais. Mas no meio desse bolo tem uma galera significativa que pega um livro longo (o popular “calhamaço”) e senta a bunda num canto e lê. Lê, lê, lê... Uma galera de crianças, jovens e adultos. Isso pra mim é muito significativo. Mais significativo é saber que As Crônicas de Gelo e Fogo está entre os livros mais vendidos do Brasil atualmente, essa que é a série de livros que certamente figura entre as maiores e mais complexas sagas já criadas, cujo autor é o americano George Martin. Eis aí a minha mais nova paixão, da qual começarei a falar nesse post.

As Crônicas de Gelo e Fogo reúnem (até agora) 5 belíssimos livros sobre uma terra chamada Westeros e as intrigas entre as famílias mais poderosas dela. Trata-se de uma terra fictícia que George Martin criou baseando-se na cultura da Idade Média. Nela existe uma riqueza espantosa de detalhes de cada povo que a habita, características históricas, geográficas, religiosas e físicas que formam cada sociedade, marcando suas diferenças e norteando a textura dos seus contatos. Além disso, são muitos personagens que compõem a saga. Eu disse muitos? Então me corrijo: inúmeros (literalmente). Vários, centenas, muita coisa. E Martin constrói cada personagem (com destaque nos principais, óbvio) com uma destreza da qual muitos acadêmicos diriam que não há mais nos dias de hoje. Não se trata de personagens psicologicamente complexos, os quais me fizeram (e fazem) viajar nas páginas de Dostoievski e Woolf. O barato no desenvolvimento dos personagens de Martin é perceber suas características pelas situações que o autor os envolve. Suas escolhas, seus pensamentos e sentimentos nos fazem entender o homem e a mulher que se desnuda diante de nós leitores através do seu ponto de vista da realidade. Isso ocorre também porque cada capítulo é contado do ponto de vista de um dos personagens, apesar de o narrador ser observador e não participante.

Westeros é uma terra cruel onde habitam poderosas famílias que jogam um jogo: o jogo dos tronos. Daí o nome do primeiro livro em inglês ser “Game of Thrones”. Trata-se de um jogo pelo poder de controlar o reino de Westeros. E esse jogo é ora violento, ora sutil. Ele divide várias famílias, umas grandes outras pequenas, mas todas ambiciosas. E nessa trama se desenrolam as ações dos muitos personagens da série, uns se demonstrando serem muito inteligentes no jogo, outros mais passionais do que inteligentes, e outros nem um pouco interessados em jogar, mas envolvidos até o último fio de cabelo na guerra de Westeros. Nisso cada personagem mostra o seu ponto de vista sobre o mundo que o cerca, e suas ações vão tendo consequências que eles nem mesmo suspeitavam. Ned, o senhor de Winterfel, um castelo de região Norte de Westeros, membro da antiga família Stark, vive pela sua honra, cego pelo cumprimento do seu dever. Um personagem correto, com um caráter irrepreensível, mas que, justo por essas características, não enxerga que no jogo dos tronos há algo muito mais do que a honra envolvido. Deve-se nesse jogo, antes de tudo, antecipar as ações do adversário, não contando que este vá agir de acordo com os princípios da lei. Afinal de contas, em Westeros, assim como no mundo real, os poderosos ignoram constantemente a legalidade em favor da manutenção do seu poder, em detrimento dos não poderosos.

Robert Baratheon, o rei, ganhou Westeros pela guerra, mas não se interessa nem um pouco em se manter como líder maior do reino. Boêmio, alcoólatra e fanfarrão, Robert vive para afogar as mágoas pela morte de Lyanna, a mulher que seria a sua esposa, a quem ele realmente devotava todo o seu amor. Porém no mundo louco de Westeros não se tem tempo de chorar constantemente as dores do passado, pois o presente está sempre repleto de ameaças. E a ameaça do rei dorme ao seu lado. Cersei, membro da família Lannister, a mais rica, cruel e temida de Westeros, foi oferecida pelo seu pai, Tywin, ao rei Robert no final da rebelião que levou este ao poder. O casal se despreza, mas, ao contrário do marido, Cersei quer o trono para si, deseja o poder mais do que a tudo no mundo, e nas mãos dela Robert se torna presa fácil. Contudo Cersei é mais ambiciosa do que inteligente. Ao longo da história ela vai trocando os pés pelas as mãos até cair num abismo cavado por ela mesma. Mas esse processo demora mais precisamente 4 livros até acontecer.

Nas mãos de George Martin tudo é lento. Ele constrói uma história complexa numa teia confusa ao mesmo tempo que perfeitamente lógica. Essa teia vai crescendo gradativamente ao longo dos livros, através de intrigas, casamentos, laços feitos e desfeitos, traições, assassinatos, guerras e estratégias. Cada livro não tem menos do que 500 páginas muito bem escritas, páginas que exigem um leitor atento, astuto e, sobretudo, paciente. Mesmo sendo filho da sociedade mais capitalista e consumista do mundo, Martin parece ignorar o seu próprio país e a cultura produtiva dele ao criar uma história medievalista que, ao que parece, não terá final feliz. Nos apegamos aos personagens que Martin cria e, de repente, eles morrem. Nos acostumamos a acreditar que uma determinada coisa ocorrerá quando, de repente, ocorre outra. As Crônicas de Gelo e Fogo nos surpreendem o tempo inteiro. Houve cenas tão fortes que, após lê-las, eu nem consegui dormir direito de tão dramáticas e reais que elas pareceram ser. E são. A arte é um tipo de vida, e a literatura, mais do que todas as artes, expressa a vida como ela é. A irrealidade de Westeros é muito real, assim como a sua irracionalidade é perfeitamente racional. Como na vida, nada faz sentido no jogo dos tronos, ao mesmo tempo em que tudo é dotado do mais completo sentido. Um sentido humanamente criado e destruído, para depois ser recriado. Assim como é a história.

George Martin é o escritor do nosso tempo. Palmas para ele...

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