Fazia uma noite fria. Estava cansada. Tinha trabalhado um dia inteiro e andava agora rumo ao ponto de ônibus, de volta pra casa. Enquanto caminhava sentia a cidade dentro de si, como sempre fazia desde pequena. Gostava de andar e ver as ruas, as esquinas, os prédios e casas que a rondavam. E gostava principalmente de ver as pessoas ao seu redor. Como fora criada no Rio, estava acostumada a ver muita gente ao mesmo tempo, andando, trabalhando, namorando, parando, rindo, chorando, brigando... O ser humano era para ela uma eterna novidade, mesmo que esta se repetisse nas mesmas circusntâncias da vida, nos mesmos retratos que formam a existência humana nessa terra, nesse mistério... Por vezes isso a fazia pensar em si mesma e na sua própria vida, se interpretando, reinterpretando e se redescobrindo a cada pensamento. Que nada na vida é exato disso ela sabia. Mas será que isso significava que que não existe uma verdade em nós mesmos? Será que, se vendo nua em si mesma, ela não encontraria algumas respostas sobre ela, sobre a Clarice? Sobre essa história, esse ser dentro desse corpo com um nome tão fantástico e comum ao mesmo tempo?
Enquanto andava vira um rapaz sentado próximo a uma estátua que ficava em frente ao Paço Imperial. Ele tinha um olhar perdido, cujo expressar parecia querer gritar "socorro", como quem procura por algo que se perdeu... Essa imagem a assutou um pouco, de forma que seus olhos se arregalaram, deixando escapar um pouco de lágrima espontânea. Mas logo ela desviou o olhar para frente, apressando os passos rumo ao seu destino cotidiano, quando avistou um casal de namorados que pareciam os seres mais perdidos na felicidade do mundo. Eles se olhavam como se tivessem caído numa obra de Monet depois de estarem muito tempo presos num porão, trancafiados numa escuridão sem sentido. O carinho dos dedos dele deslizando pelo rosto dela quase fez Clarice estremecer por fora tanto quanto ela estava estremecendo por dentro. Ela quase parou de andar, ficando seus passos tão lentos como os de uma bailarina no auge de sua apresentação... E quando ela o beijou, abraçando-o firme em seu peito, Clarice quase aplaudiu, quase se ajoelhou em plena praça, em pleno cotidiano, na plena rotina...
Mas ela continuou seu caminho pensando se a felicidade deles duraria para sempre como ela achou um dia que as dela iriam durar. Se eles estavam tão apaixonados um pelo outro, porque esse sentimento deveria acabar? Será que tudo passa realmente? O amor é um sentimento tão misterioso para ela que, por vezes , chegava a pensar que esse sentimento só tinha uma coisa de consistente: o nome. Dizemos as mesmas coisas para pessoas tão diferentes ao longo de nossas vidas, fazendo as mesmas declarações amorosas.. Sentimos as mesmas coisas por pessoas de mundos tão contraditórios... De forma mais clara, crua, visceral, Clarice pensava que o amor é um sentimento encarado como único, especial, mas que se manifesta da mesma forma e por várias vezes na vida de uma pessoa que ela chegava a ter certeza de que esse famoso e cobiçado sentimento não existia a não ser na mente humana... Mas nesse momento parecia que uma outra Clarice surgia nela, de um canto de seu espírito o qual ela nunca conseguia controlar, apesar de seus pensamentos lhe parecerem tão corretos e embasados em experiências muito concretas... Perguntas surgiam nessas horas, perguntas essas que não lhe permitam ter a paz de uma pessoa de fé e convicção... Será que nada fica até final, que nada permanece no meio desse tudo que é o espetáculo da vida humana? Ela apressava os passos enquanto lembrava de seus amores passados... Estava certa de que não havia vilões e mocinhos nas suas histórias de amor, salvo algumas exceções. Será que em algum canto de seu passado estaria a fixação de seu espírito, o fim desse eterno vagar que ela sentia dentro de seu ser? Tinha idade suficiente para marcar seu rosto e seu olhar com histórias intensas de amores passageiros. Será que esses amores foram passagerios porque ela não se permitiu vivê-los de forma mais real, se entregando a eles? Já fora casada, mas nunca teve um filho. Não sabia responder se um filho a fazia falta, nem se era penoso para ela dormir sozinha em sua cama de casal, como fazia há quase 10 anos.
Ela já tinha entrado no ônibus em direção à sua casa. Enquanto o transporte dava partida, seus olhos miravam a cidade e as pessoas que davam vida a ela... Era tanta gente, tantas histórias, tanto tudo que chegava a ficar tonta. Sentia que aquelas pessoas tinham tudo a ver com ela, ao mesmo tempo em que um abismo as separava. Todos pareciam caminhar rumo a destinos tão certos e tão pouco conhecidos... Ela via o cotidiano como uma vassoura que varria as pessaos e as levavam para muito longe, às vezes longe até delas mesmas... O fantástico é mascarado pelo cotidiano, assim como o absurdo é superficialmente desfeito pela razão... E naquela viagem diária de volta pra casa, Clarice parecia se ver através das janelas do ônibus, tendo a certeza dentro de si de que a vida daquelas pessoas era tão incerta e misteriosa quanto a dela, e que não poderia ser diferente, pois somos humanos, não? Somos bombas sem claros objetivos, num é? Somos diferentes, tão diferentes... mas, ao mesmo tempo... tão iguais...
Ela já tinha entrado no ônibus em direção à sua casa. Enquanto o transporte dava partida, seus olhos miravam a cidade e as pessoas que davam vida a ela... Era tanta gente, tantas histórias, tanto tudo que chegava a ficar tonta. Sentia que aquelas pessoas tinham tudo a ver com ela, ao mesmo tempo em que um abismo as separava. Todos pareciam caminhar rumo a destinos tão certos e tão pouco conhecidos... Ela via o cotidiano como uma vassoura que varria as pessaos e as levavam para muito longe, às vezes longe até delas mesmas... O fantástico é mascarado pelo cotidiano, assim como o absurdo é superficialmente desfeito pela razão... E naquela viagem diária de volta pra casa, Clarice parecia se ver através das janelas do ônibus, tendo a certeza dentro de si de que a vida daquelas pessoas era tão incerta e misteriosa quanto a dela, e que não poderia ser diferente, pois somos humanos, não? Somos bombas sem claros objetivos, num é? Somos diferentes, tão diferentes... mas, ao mesmo tempo... tão iguais...
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