segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Benigno.



Almodóvar é um dos artistas mais brilhantes que eu conheço. Seus filmes são refinados, complexos, sofisticados, delicados... São de uma inteligência e perspicácia que somente os grandes possuem. Poucos nascem para serem grandes nesse mundo de muitos. Almodóvar é um grande, sem sombra de dúvidas. Gostaria de escrever meus textos como ele faz filmes. Mas sem chance de isso acontecer. Fica pra próxima encarnação. Mas hoje estou aqui para falar de um dos filmes mais incríveis dele: "Fale com ela". Filmaço no sentido mais estrito que esse termo pode ter... Vamos a ele.

Os personagens de Almodóvar são a primeira coisa que me chama a atenção em seus filmes. Eles desafiam as regras sociais, todas as conveções que aprendemos a ter como certas desde pequenos. Ele dá voz a pessoas que têm voz em nossa sociedade somente de noite e em locais específicos. Aqui no Rio, por exemplo, o bairro da Lapa ao cair da noite é o reduto de homossexuais, travestis, drogados, bêbados... Em Caxias, também ao cair da noite, começam a aparecer bêbados por todas as ruas. Já os travestis e homossexuais sequer têm um bairro. Eles têm uma rua, atrás de um supermercado, depois de altas horas da noite. Já os viciados em craques ocupam a frente de um outro supermercado ao longo das madrugadas, logo na entrada de Duque de Caxias. Todos esses personagens aparecem a nós nos telejornais como seres marginais, fora da concepção que nós temos de humanidade. Mas nos filmes de Almodóvar não. Neles, todas as pessoas que nos acostumamos a ver como "undergrournds"  são os protagonistas de uma visão de mundo totalmente distinta do convencional, e que desafia essa mesma convenção o tempo todo. Em "Fale com ela" o personagem que nos deixa bestializado diante da tela é Benigno. 



Benigno é aquele tipo de pessoa que no colégio é chamado de "lerdo", de "autista", de "mongol" e por aí vai. Ele passou toda a sua juventude cuidando de sua mãe, que era doente. E depois, como ele era enfermeiro, ele passa a cuidar exclusivamente de uma menina no hospital em que trabalha, menina essa cujo nome é Alicia. Alicia entrou em coma depois de um acidente de carro e nesse estado ela já estava  há quatro anos, quando o filme começa. Mas Alicia não é uma menina comum para Benigno. Ele já a conhecia antes de ela entrar em coma. Ele a observava da janela de seu apartamento enquanto ela tinha aulas de ballet. E nessas observações Benigno criou uma Alicia dentro de si que talvez jamais existira, mas que ele amava com toda a sua força. Ele era louco por ela, mas nunca conseguiu se aproximar de Alicia de forma concreta ou convencional, exceto por uma vez que ele viu a carteira de Alicia cair no chão enquanto ela saía de sua aula de ballet. Ele, desesperado, pega a carteira dela e começa a segui-la. Transtornada, Alicia pergunta o porquê de ele estar seguindo-a. Ele entrega a carteira a ela e ganha sua simpatia por um curto período, período esse suficiente para ele descobrir aonde ela morava. 


Alicia morava com seu pai, que era psiquiatra. Na verdade ela morava atrás do consultório dele. Benigno, em sua "loucura" marca um consulta com o pai de Alicia, somente para se aproximar dela. Chegando lá, quando a consulta acaba, ele consegue adentrar pelo apartamento de Alícia, descobrindo um pouco de seu mundo. De repente ele a vê saindo do banho, semi-nua. Ela se assusta. Benigno responde: "Não se assuste. Sou inofensivo", e se vai. Essa frase quase corta meu coração quando lembro dela e da cena. Ela é pura e simples, como todas as frases deveriam ser. O problema é que esse mundo dos milhões no qual vivemos tem uma metralhadora de convenções, de pequenos rituais para nos aproximarmos de alguém. Todos parecem temer quem está em sua volta, pois nunca se sabe quem é quem. Benigno pode ser encarado como louco por muitos que veem o filme, mas para mim ele é somente um filho da modernidade e de todas as suas angústias, complexidades, caminhos... Ele é o filho que se voltou contra o próprio pai, pois ele não obedece a nenhuma das regras da modernidade. Ele vive dentro de seus próprios conceitos de certo e errado, sem ligar muito pro que os outros pensam. Uma cena do filme me fascina e mostra bem isso. Vamos a ela.

Benigno trava um diálogo com Marcos, homem de meia idade, machucado pela vida, tristonho e introspectivo. Marcos estava no hospital por causa de sua mulher, que estava  também em coma. Quando ele conhece Benigno logo ele percebe que se tratava de uma pessoa especial, diferente de tudo o que ele já tinha visto na vida. Chega uma hora que Marcos pergunta pra Benigno o que ele sabia sobre mulheres, qual tinha sido a experiência dele com elas. Benigno dá uma resposta magistral: "Sei muito. Cuidei de uma por mais de vinte anos e cuido de outra há quatro...".Muitos diriam que Benigno não sabia nada sobre mulheres, pois ele ainda era virgem mesmo depois de adulto e nunca havia tido uma namorada na vida.  As pessoas costumam pensar que ter muitas experiências de vida é fazer muitas loucuras, principalmente ao longo da juventude. É fazer muito sexo com pessoas diferentes, é usar muitas drogas, sejam elas convencionais ou não, é andar de trem ou de ônibus no teto, é ir pra inúmeras baladas e encher a cara... Acontece que Benigno nunca havia feito nada disso, mas, do jeito dele, ele havia vivido, havia tido as suas experiências de vida do seu jeito, através das suas percepções e com a sua história. Eu concordo com Benigno sobre as mulheres. Hoje eu não acho que seja preciso conhecer muitas para se criar uma percepção geral sobre elas. Basta olharmos para as mulheres de nossas famílias, para nossas amigas, colegas de trabalho e pras mulheres que tivemos na vida para criarmos a nossa interpretação sobre elas. E essa interpretação será válida, tão válida quanto a do Chico Buarque ou a de Pablo Neruda. A vida não tem muito mistério...

"Fale com ela" é uma obra prima do cinema contemporâneo, um filme de tirar o fôlego literalmente. De fazer chorar... Todos os personagens do filme estão "à flor da pele", estão nos seus limites espirituais... Vi esse filme pela última vez na manhã de um dia desses que se passou... E tive uma experiência linda comigo mesmo, com o meu presente e meu passado... Recomendo o filme a todos...



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