Como tinha gente na estação de metro da Pavuna, pensava Marcos. Todos os dias ele chegava àquela estação do metrô pontualmente, às 7 horas da manhã. Precisava estar na repartição às 8:30. Saltaria na Central e iria andando até lá. Todos os dias da semana fazia tudo sempre igual, às vezes repetindo a mesma roupa dois dias seguidos, pois não era dado a vaidades. E todos os dias ficava espantado com a quantidade de gente que se apertava no vagão do metrô para poder chegar, cada um, no seu destino cotidiano. Quanta gente essa cidade tem, pensava ele. São Paulo é muito pior. Deus me livre...
Na sua bolsa, e ele usava a mesma bolsa havia 3 anos, uma pequena mochila preta com uma alça somente, ele levava sempre alguns livros, para a viagem passar mais rápido. Estava lendo um livro espírita, um outro livro de poemas e relendo pela quarta vez na sua vida “Crime e Castigo”, de Dostoievski, seu autor favorito. Não se podia dizer que Marcos era um intelectual, posto que sua mente funciona lenta demais, e sem ideias muito bem elaboradas, por serem sempre muito caóticas. Mas adorava ler. Gostava de ler novas ideias, relatos dramáticos, poesias de vida e de amor... Era a inspiração necessária à vida de um homem no meio de uma multidão cotidiana e mecânica.
Sentia um leve desprezo pelo mundo que o cercava. Dava graças a Deus por ser concursado e receber todo mês os seus R$ 2.500, que não somavam uma grande fortuna num país cheio de contas a serem pagas, como o Brasil. Mas eram mais do que o suficiente para ele se sustentar e comprar os seus livros. Morava em um apartamento próprio em Duque de Caxias. Seria mais fácil pegar um ônibus direto para a Central. Mas no metrô ele iria lendo e evitava engarrafamentos. Como a rotina era algo detestável para ele. Mas não tinha opção. O mundo não é dos sonhadores. O mundo é dos objetivos. Deveria trabalhar, ganhar dinheiro, pagar contas e envelhecer. E pronto.
No olhar de Marcos havia algo como uma marca, como se ele houvesse perdido um filho em sua vida. Mas nunca perdera um filho, pois nunca nos seus 30 anos de vida fizera um filho em alguma mulher. Morava sozinho e há alguns anos o amor se reduzia a pequenas e freqüentes aventuras que começavam na mesa de um bar e terminavam na cama, dentro do seu quarto. Não mentia: para todas as mulheres que com ele se envolviam não prometia nada, somente momentos. E cumpria a sua palavra. E depois que elas adormeciam em seu peito, pois ele era romântico e sempre levava as cabeças das mulheres para o seu peito liso de jovem, ele demorava a pegar no sono ao mesmo tempo em que olhava para o teto e via crescer dentro de si o seu olhar cada vez mais perdido e consciente. Marcos nunca perdera um filho, mas tinha perdido a mágica no olhar de uma pessoa.
Se tratava de um olhar profundo e aéreo ao mesmo tempo, e a profundidade desse olhar estava justamente nesse tom aéreo e nos segredos que ele escondia atrás de si. Às vezes achava que o mundo era composto por pessoas fúteis, que não conseguiam pensar para além do materialismo que cerca as coisas desse lindo mundo moderno. Outras vezes achava que esse pensamento era preconceito seu, pois todos deviam ter os seus problemas e dores íntimas, mas a luta diária pela vida uniformizava a todos numa máscara de segurança e postura de adulto. Talvez todos tivessem um olhar semelhante ao de Marcos. Não importa. O certo é que o olhar de Marcos não mais tem a mágica da pureza inocente de quem nunca perdeu. E, imprensado contra a parede do vagão, com as costas doendo e sentindo o cheiro de um perfume de mulher, Marcos estava, agora, tentando pegar o seu livro de poesias para ler um pouco. E lera, até chegar a Central.
E depois tudo se repetiu, como num filme: Marcos chegou na Central, comeu seus dez pãezinhos de queijo com mate natural e foi para o trabalho. Mas seu olhar continuava sem mágica. Às 17 horas Marcos saiu do trabalho e pegou o metrô novamente, de volta para casa. Chegava sempre por volta das 19 horas em casa, faminto e demasiadamente cansado. E sem aquela mágica no olhar. Tomou banho, preparou a sua janta, viu o telejornal, reclamou do país. Depois pegou o seu maço de cigarros e pôs-se à janela para ver a rua. Fazia uma noite fria e estrelada. Pessoas passavam pelas ruas o tempo todo. Cada pessoa tinha a sua história, a sua vida, o seu destino. E isso o oprimia, pois era gente demais, destinos demais que passavam por ele, ali na frente da sua janela. Queria abraçar as pessoas de uma só vez, não elas propriamente ditas, mas o fluxo de vida que elas representavam. Era muita coisa, era vida demais. Ele se sentia velho diante de tanto peso que lhe caía na alma. Já estava no seu nono cigarro e o relógio marcava meia noite. Mas não tinha sono, só estava cansado. Cansado da rotina, cansado de ler, cansado da vida. Tinha somente 30 anos, mas estava cansado como um velho de 80. E sem mágica no olhar.
Até que ele resolveu fazer uma coisa que há 4 anos não fazia. Foi a uma gaveta fechada à chave que ficava de frente para a mesinha de centro da sala, numa pequena estante. Pegou aquela caixa de papelão com desenhos do Elvis Presley. Tinha lágrimas nos olhos. Abrindo a caixa, lá estava a sua mágica: cartas de amor. Eram cartas de um amor antigo, que há muito se perdera nas vielas da sua vida. Eram cartas de um amor mágico, imaturo e sem máculas. Cartas longas, sinceras, vindas de um coração o qual ele nunca mereceu, mas obteve durante um ano e meio de sua vida. Mas não tinham somente cartas. Tinha fotos, bilhetes de entradas de cinemas, teatro, museus. Todas datadas do ano de 1999. Havia uma história dentro daquela caixa. E as lágrimas, cheias de mágica, brotavam de seu rosto e manchavam aqueles elementos todos, guardados como relíquias, como provas de uma civilização perdida. Eram marcas de sorrisos sinceros, de noites eternas de um amor singelo. De planos e fantasias que não se realizaram enão se realizariam nunca...
Até que Marcos não mais agüentou: fechou a caixa de papelão, pôs tudo dentro da gaveta e a trancou. Cansado e já sem mágica, se jogou na cama dentro do quarto já escuro, iluminado vagamente pela luz da sala. Naquela noite, como em muitas outras do seu passado e do seu futuro, Marcos pegaria no sono enquanto chorava. Seu choro era pura dor nesses momentos, não mágica. E nos dias seguintes tudo aconteceria de forma sempre igual na vida de Marcos: mecânica, poética e sem mágica...
Na sua bolsa, e ele usava a mesma bolsa havia 3 anos, uma pequena mochila preta com uma alça somente, ele levava sempre alguns livros, para a viagem passar mais rápido. Estava lendo um livro espírita, um outro livro de poemas e relendo pela quarta vez na sua vida “Crime e Castigo”, de Dostoievski, seu autor favorito. Não se podia dizer que Marcos era um intelectual, posto que sua mente funciona lenta demais, e sem ideias muito bem elaboradas, por serem sempre muito caóticas. Mas adorava ler. Gostava de ler novas ideias, relatos dramáticos, poesias de vida e de amor... Era a inspiração necessária à vida de um homem no meio de uma multidão cotidiana e mecânica.
Sentia um leve desprezo pelo mundo que o cercava. Dava graças a Deus por ser concursado e receber todo mês os seus R$ 2.500, que não somavam uma grande fortuna num país cheio de contas a serem pagas, como o Brasil. Mas eram mais do que o suficiente para ele se sustentar e comprar os seus livros. Morava em um apartamento próprio em Duque de Caxias. Seria mais fácil pegar um ônibus direto para a Central. Mas no metrô ele iria lendo e evitava engarrafamentos. Como a rotina era algo detestável para ele. Mas não tinha opção. O mundo não é dos sonhadores. O mundo é dos objetivos. Deveria trabalhar, ganhar dinheiro, pagar contas e envelhecer. E pronto.
No olhar de Marcos havia algo como uma marca, como se ele houvesse perdido um filho em sua vida. Mas nunca perdera um filho, pois nunca nos seus 30 anos de vida fizera um filho em alguma mulher. Morava sozinho e há alguns anos o amor se reduzia a pequenas e freqüentes aventuras que começavam na mesa de um bar e terminavam na cama, dentro do seu quarto. Não mentia: para todas as mulheres que com ele se envolviam não prometia nada, somente momentos. E cumpria a sua palavra. E depois que elas adormeciam em seu peito, pois ele era romântico e sempre levava as cabeças das mulheres para o seu peito liso de jovem, ele demorava a pegar no sono ao mesmo tempo em que olhava para o teto e via crescer dentro de si o seu olhar cada vez mais perdido e consciente. Marcos nunca perdera um filho, mas tinha perdido a mágica no olhar de uma pessoa.
Se tratava de um olhar profundo e aéreo ao mesmo tempo, e a profundidade desse olhar estava justamente nesse tom aéreo e nos segredos que ele escondia atrás de si. Às vezes achava que o mundo era composto por pessoas fúteis, que não conseguiam pensar para além do materialismo que cerca as coisas desse lindo mundo moderno. Outras vezes achava que esse pensamento era preconceito seu, pois todos deviam ter os seus problemas e dores íntimas, mas a luta diária pela vida uniformizava a todos numa máscara de segurança e postura de adulto. Talvez todos tivessem um olhar semelhante ao de Marcos. Não importa. O certo é que o olhar de Marcos não mais tem a mágica da pureza inocente de quem nunca perdeu. E, imprensado contra a parede do vagão, com as costas doendo e sentindo o cheiro de um perfume de mulher, Marcos estava, agora, tentando pegar o seu livro de poesias para ler um pouco. E lera, até chegar a Central.
E depois tudo se repetiu, como num filme: Marcos chegou na Central, comeu seus dez pãezinhos de queijo com mate natural e foi para o trabalho. Mas seu olhar continuava sem mágica. Às 17 horas Marcos saiu do trabalho e pegou o metrô novamente, de volta para casa. Chegava sempre por volta das 19 horas em casa, faminto e demasiadamente cansado. E sem aquela mágica no olhar. Tomou banho, preparou a sua janta, viu o telejornal, reclamou do país. Depois pegou o seu maço de cigarros e pôs-se à janela para ver a rua. Fazia uma noite fria e estrelada. Pessoas passavam pelas ruas o tempo todo. Cada pessoa tinha a sua história, a sua vida, o seu destino. E isso o oprimia, pois era gente demais, destinos demais que passavam por ele, ali na frente da sua janela. Queria abraçar as pessoas de uma só vez, não elas propriamente ditas, mas o fluxo de vida que elas representavam. Era muita coisa, era vida demais. Ele se sentia velho diante de tanto peso que lhe caía na alma. Já estava no seu nono cigarro e o relógio marcava meia noite. Mas não tinha sono, só estava cansado. Cansado da rotina, cansado de ler, cansado da vida. Tinha somente 30 anos, mas estava cansado como um velho de 80. E sem mágica no olhar.
Até que ele resolveu fazer uma coisa que há 4 anos não fazia. Foi a uma gaveta fechada à chave que ficava de frente para a mesinha de centro da sala, numa pequena estante. Pegou aquela caixa de papelão com desenhos do Elvis Presley. Tinha lágrimas nos olhos. Abrindo a caixa, lá estava a sua mágica: cartas de amor. Eram cartas de um amor antigo, que há muito se perdera nas vielas da sua vida. Eram cartas de um amor mágico, imaturo e sem máculas. Cartas longas, sinceras, vindas de um coração o qual ele nunca mereceu, mas obteve durante um ano e meio de sua vida. Mas não tinham somente cartas. Tinha fotos, bilhetes de entradas de cinemas, teatro, museus. Todas datadas do ano de 1999. Havia uma história dentro daquela caixa. E as lágrimas, cheias de mágica, brotavam de seu rosto e manchavam aqueles elementos todos, guardados como relíquias, como provas de uma civilização perdida. Eram marcas de sorrisos sinceros, de noites eternas de um amor singelo. De planos e fantasias que não se realizaram enão se realizariam nunca...
Até que Marcos não mais agüentou: fechou a caixa de papelão, pôs tudo dentro da gaveta e a trancou. Cansado e já sem mágica, se jogou na cama dentro do quarto já escuro, iluminado vagamente pela luz da sala. Naquela noite, como em muitas outras do seu passado e do seu futuro, Marcos pegaria no sono enquanto chorava. Seu choro era pura dor nesses momentos, não mágica. E nos dias seguintes tudo aconteceria de forma sempre igual na vida de Marcos: mecânica, poética e sem mágica...

Denis seu blog esta muito bom, gostei muito dos textos, esse, o de Montevidéu, o de Fale Com Ela, o do homem-bomba, enfim, todos ótimos. Eu vou criar um blog também já que ficarei 5 meses "parado", vai ser bom poder escrever; eu já teria criado pra falar a verdade mas nao consigo arranjar um nome. Estou a espera da nossa saida para batermos um papo, logo que tiver tempo nao deixe de me avisar. Abraço.
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