terça-feira, 7 de maio de 2013

Foda-se a sua opinião




               Há algum tempo tem uma questão que me intriga e, por certo, me confunde. Trata-se de uma coisa que todos nós temos e a qual damos muito valor: a opinião. Quem nunca terminou uma discussão com a célebre e poderosa frase: "essa é a minha opinião"? O nosso modo de pensar nos parece, por vezes, uma imensa fortaleza atrás da qual podemos nos proteger do resto do mundo, uma muralha à la "game of thrones" que impermeabiliza o nosso eu. É a vulgarização da famosa dualidade cartesiana que separa o corpo do espírito. Parece-me que queremos afirmar a nossa identidade com as nossas opiniões, mesmo que esse exercício seja feito de forma inconsciente. Ao colocarmos a nossa opinião como uma espécie de sagrado secular, parece-nos que o fato de as ideias expressas serem nossas nos torna imunes a qualquer reprimenda ou opressão.
                Essa é a tônica dos "neodefensores" da liberdade de expressão no Brasil. Se antes quem defendia a liberdade de expressar ideias era o pessoal que lutava contra a cruel ditadura que vigorou por 21 anos por aqui, hoje figuram no grupo dos "defensores da democracia" "humoristas" agressivos e sem graça, como Rafinha Bastos, e evangélicos fundamentalistas, como o (pastor?) Silas Malafaia. Isso sem falar nos jornalistas da grande mídia brasileira (lê-se, rede plim-plim de televisão), que atacam veementemente o chavismo venezuelano, classificando esse governo como um atentado a democracia, ao mesmo tempo em que selecionam os acontecimentos da sociedade brasileira de um jeito que transforma atrocidades em benefícios para a nação. Penso aqui, para ficar só com um exemplo, na reforma do Maracanã, noticiada como um grande negócio para a cidade do Rio, quando, de fato, trata-se do tiro de misericórdia no futebol carioca e no exemplo mais escroto e típico do patrimonialismo que vigora na política nacional.
                Nem vou entrar na questão sobre o irritante discurso contra o "politicamente correto" que está cada vez mais na boca das pessoas. Para mim está claro que as pessoas que dizem que o Brasil está "ficando chato", que não se pode mais dizer nada nesse país, pois tá tudo muito politicamente correto, querem, na verdade, bater em minorias sociais sem serem importunadas. Nem vou perder tempo com isso. A questão que quero levantar é: como as pessoas constroem opiniões no Brasil? Como a galera daqui formula seus pensamentos? Será mesmo que qualquer opinião é válida simplesmente porque é uma opinião (e não se trata, lembremos, de qualquer opinião, pois é a "minha opinião")? Como se deve construir uma opinião?
                Penso, antes de tudo, que para formularmos um pensamento precisamos forçosamente pensar no outro. Esse é um exercício fundamental para a democracia. Se nos considerarmos ilhas autônomas e com sentido em nós mesmos, correremos o sério risco de ajudarmos a perpetuar preconceitos e atos discriminatórios há muito enraizados na história da sociedade brasileira. A opinião é sua, mas a sociedade e a história de seu país não são. Assim como o bem estar psicológico e físico do outro não são seus. Não há sentido para a opinião fora da comunicação. E a comunicação é um ato social, sempre, mesmo quando escrevo um texto no quarto da minha casa, totalmente absorto e alheio ao resto do mundo. É pra esse mundo que escrevo, pensando nele, a partir dele e por causa dele.
                Sobre as bases da nossa opinião, eu acho que todo o cidadão deve ler muito, ler de tudo, inclusive bula de remédio. E ler de forma crítica, questionando constantemente o autor do texto que está na nossa frente, as coisas que ele diz, tentando entender as suas motivações e as ideologias que ele defende e que quer que você também defenda. Será que essa ideologia é boa para a coletividade? Ela discrimina alguém? Ela interpreta a realidade social de forma coerente e democrática? Essa ideologia me permite viver de forma pacífica com as demais pessoas que comigo compõem a sociedade?
                Não que eu ache que todos tem que ser intelectuais. Afinal de contas não saberia responder o que é ser intelectual. O que quero dizer é que, se a opinião é um ato comunicativo, é na comunicação que ela deve também se formar. Na comunicação com livros, sites, blogs, revistas, cinema, teatro etc. E essa comunicação deve ser complexa no sentido de me permitir entrar em contato com várias opiniões e refletir sobre essas opiniões. O que diferencia a gente dos demais seres vivos da natureza é a nossa complexa capacidade de pensar. Por isso não acho que estou querendo demais dos brasileiros. Quero que eles exercitem o potencial humano que todos nós temos e que devemos aplicar na nossa vida. Só assim uma real democracia pode ser alcançada.
                Ao colocar a alienação como um dos elementos mais fundamentais presentes no sistema capitalista, entendo que Marx colocou uma concha de pessimismo em relação à democracia. Daí o bom e velho pensador alemão ter vislumbrado na revolução uma forma de ruptura social que faria o homem encontrar-se consigo mesmo. Não acredito na revolução. Perdi a fé nessa possibilidade há muito tempo. Mas concordo que os homens precisam encontra-se consigo mesmos. E acredito, com Rousseau e Tocqueville, que esse encontro deve ocorrer na democracia, apesar de todas as imperfeições desse tipo de governo e da associação, sempre nociva e ressaltada por Tocqueville, desse sistema político com o capitalismo. Aqui me vejo reforçando um truísmo um tanto quanto imbecil: a educação ocupa um lugar fundamental numa sociedade democrática. Não que eu ache que a escola seja o alicerce de todas as mudanças sociais. Só vejo que é entre os muros dela que algumas reflexões necessárias são - ou devem ser - feitas com os alunos. Ela é o lugar por excelência dessas reflexões. Daí a importância de uma educação laica e de qualidade para os brasileiros, coisa que nós NUNCA tivemos.
                E aqui está o ponto chave desse texto: as pessoas não se preocupam com a qualidade das suas opiniões. A ausência de uma escola de qualidade se faz notar não somente na forma como as pessoas aqui no Brasil escrevem, mas no jeito que elas formulam as suas ideias (quando não simplesmente reproduzem as ideias alheias). As ideias pobres que circulam por esse país são frutos de mentes pobres, as quais não enxergam uma realidade complexa, mas sim unidimensional. Se um jovem foi pego roubando, a solução é fácil: reduz a maioridade penal e prende o "de menó". Se um bandido foi pego traficando, mata o "vagabundo". Se o filme não tem uma história com uma mensagem óbvia, é porque não tem final. Se numa discussão alguém pensa diferente de mim, é porque não gosta de mim. E nas discussões a ideia nunca é repensar os nossos posicionamentos, mas reafirmá-los a todo o custo.


                Os anos nos quais esse país não teve um regime de governo democrático se fazem sentir em todas as partes da sociedade. É possível tocar o autoritarismo no ar. Basta pegarmos um jovem qualquer e perguntar a opinião dele sobre, por exemplo, religião, política, sexualidade e justiça. Provavelmente as respostas serão desanimadoras. Digo isso por experiência própria. E o pior: ninguém questiona a qualidade da própria opinião. A maioria se limita a dizer: "essa é a minha opinião". Ninguém questiona as ideologias inerentes a uma piada. "É só uma piada", dizem os "danilos gentilis" da vida. Ninguém percebe que as suas ideias podem estar defendendo atrocidades. "É a minha liberdade de expressão; é a minha fé", dizem os malafaias e felicianos de plantão. E que o resto se foda. Não, isso eles não dizem. Isso fica implícito...
                Quanto a mim, eu quero que se foda toda a gente que não pensa com qualidade; que não questiona o status quo; que não procura ir além do que lhe foi ensinado; que não lê, que não reflete, que não discute, que não quer que a diversidade caiba na sua cabeça. Vejam bem, eu não quero que essas pessoas morram, ou que sejam presas. Eu só quero que elas se fodam, no sentido espiritual do termo. Que elas vejam gays se casando, se beijando e adotando crianças; que elas vejam o bolsa-família ser distribuído para mais famílias; que elas não vejam a maioridade penal ser reduzida; que elas vejam cada vez mais filmes "cults" sendo produzidos; que elas ouçam o funk da casa do vizinho; e que os grafites espalhados pela cidade fiquem cada vez mais visíveis a seus olhos; que elas vejam greves tomarem esse país; que elas vejam índios invadindo o Congresso Nacional; e que a mídia alternativa cresça e apareça.
                Que a Marcha das Vadias exiba seus seios nus pelas ruas! E que o machismo e todo o tipo de opinião reacionária ou conservadora se foda!
               
               
                

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  2. no fim do processo*** Correção do erro na primeira linha.

    ResponderExcluir