
Não
escrevo por achar que os meus textos são bons. Tampouco por pensar que sou
capaz de descobrir algo novo. Escrevo porque sinto vontade de dizer. Escrevo,
suponho, para tentar organizar um pouco a confusão na qual as ideias presentes
na minha cabeça estão, sempre estiveram e sempre estarão. Escrevo pra tentar
superar os meus próprios limites intelectuais, mentais, físicos. Sinto que a
minha cabeça não funciona direito. Tenho quase certeza que morrerei com Alzheimer. Não sinto nenhum prazer em dizer isso, nem me acho um escritor
underground falando sobre a minha própria morte. Só constato um limite meu que
me incomoda, me dilacera desde sempre. Eu sempre quis mais do que a minha mente
oferece. E nunca tive esse mais...
Todo
escritor é um pouco arrogante, creio eu. É preciso ter uma autoconfiança arrogante
para acreditar nas suas próprias ideias a ponto de publicá-las. Não se trata de
uma arrogância negativa, aquela que faz o ser humano se sentir mais importante
do que o resto da humanidade. É uma arrogância positiva, aquela que faz a gente
tentar compartilhar com os outros um pensamento nosso o qual acreditamos ser
uma bela sacada... É preciso ter coragem para se posicionar, se expressar,
discutir, ouvir críticas... E quem escreve está sujeito a tudo isso, de uma vez
e, quem sabe, para todo o sempre...
Eu
me sinto angustiado quando escrevo porque percebo que meu texto nunca saiu do
jeito que eu queria. Gostaria de escrever como Virginia Woolf. Nunca vi um
escritor poetizar em prosa o cotidiano como ela faz... Para Woolf cada momento
da vida é um fenômeno com importância vital em si mesmo. Um olhar, um pentear
de cabelos, um passeio na rua, uma reunião de amigos... Virginia transforma
qualquer coisa de seus personagens num eterno filosofar sobre a vida, numa
filosofia leve, fluida, como um mergulhar num rio em tempos de forte verão... O
corpo se deixa levar pelas águas em momentos como esse, e nos sentimos vivos
como nunca antes... Assim faz Virginia com as palavras, as quais carregam
pequenos pedaços do espírito humano, e que, juntas, formam um momento, dando
sentido à falta de sentido que é a vida...
Como
eu gostaria de ser como ela... Ou como um George Martin, nas suas tramas
complexas... Como um Dostoievski, na sua psicologia infernal... Como um
Tolstoi, arguto observador da vida humana... Ou como uma Rowling, a bela
criadora de personagens carismáticos... E como não falar de Graciliano Ramos, o
escritor da miséria humana? De Balzac, o astuto crítico da infantilidade dos
homens... De Antônio Torres, o contador da história dos trabalhadores pobres e migrantes
nordestinos... Como Cecília, na sua poesia enigmática e tão bem expressa... De
Merquior, com toda a sua erudição espantosa... De Marx e sua raiva implícita
nas críticas da filosofia idealista e do capitalismo...
Às
vezes eu abro a página eletrônica do Museu Nacional e fico olhando os links dos
professores, os grandes antropólogos que esse país tem. São meus ídolos, apesar
de conhecê-los pouco... Admiro a todos os escritores do mundo, a concentração
deles, a solidão deles, as palavras deles... Sobretudo os capazes de inovar...
Foucault, Sahlins e Viveiros de Castro talvez sejam os maiores inovadores
dentre eles... Os cineastas também são escritores. E como gosto dos textos em
tela de Almodóvar, Tarantino, Kurosawa (o maior de todos!), Murnau, Coppola e
companhia...
Repito:
escrevo porque tenho vontade de dizer. Acredito que eu também tenho o que
dizer... Escrevo para perseguir uma estética a qual, creio, nunca alcançarei...
Persigo o meu texto como a lembrança persegue um amor passado, tentando resgatar
um gozo da noite que não mais voltará... Escrevo sobretudo porque tento ser
além do que eu sou... Concordo com Leminski quando ele diz que sendo quem somos
iremos, um dia, além. Mas isso não cabe pra mim. Eu só irei além quando, de
fato, for além. Escrevo para ir além...
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