sexta-feira, 17 de maio de 2013

Porque escrevo




                Não escrevo por achar que os meus textos são bons. Tampouco por pensar que sou capaz de descobrir algo novo. Escrevo porque sinto vontade de dizer. Escrevo, suponho, para tentar organizar um pouco a confusão na qual as ideias presentes na minha cabeça estão, sempre estiveram e sempre estarão. Escrevo pra tentar superar os meus próprios limites intelectuais, mentais, físicos. Sinto que a minha cabeça não funciona direito. Tenho quase certeza que morrerei com Alzheimer. Não sinto nenhum prazer em dizer isso, nem me acho um escritor underground falando sobre a minha própria morte. Só constato um limite meu que me incomoda, me dilacera desde sempre. Eu sempre quis mais do que a minha mente oferece. E nunca tive esse mais...
                Todo escritor é um pouco arrogante, creio eu. É preciso ter uma autoconfiança arrogante para acreditar nas suas próprias ideias a ponto de publicá-las. Não se trata de uma arrogância negativa, aquela que faz o ser humano se sentir mais importante do que o resto da humanidade. É uma arrogância positiva, aquela que faz a gente tentar compartilhar com os outros um pensamento nosso o qual acreditamos ser uma bela sacada... É preciso ter coragem para se posicionar, se expressar, discutir, ouvir críticas... E quem escreve está sujeito a tudo isso, de uma vez e, quem sabe, para todo o sempre...
                 Eu me sinto angustiado quando escrevo porque percebo que meu texto nunca saiu do jeito que eu queria. Gostaria de escrever como Virginia Woolf. Nunca vi um escritor poetizar em prosa o cotidiano como ela faz... Para Woolf cada momento da vida é um fenômeno com importância vital em si mesmo. Um olhar, um pentear de cabelos, um passeio na rua, uma reunião de amigos... Virginia transforma qualquer coisa de seus personagens num eterno filosofar sobre a vida, numa filosofia leve, fluida, como um mergulhar num rio em tempos de forte verão... O corpo se deixa levar pelas águas em momentos como esse, e nos sentimos vivos como nunca antes... Assim faz Virginia com as palavras, as quais carregam pequenos pedaços do espírito humano, e que, juntas, formam um momento, dando sentido à falta de sentido que é a vida...
              Como eu gostaria de ser como ela... Ou como um George Martin, nas suas tramas complexas... Como um Dostoievski, na sua psicologia infernal... Como um Tolstoi, arguto observador da vida humana... Ou como uma Rowling, a bela criadora de personagens carismáticos... E como não falar de Graciliano Ramos, o escritor da miséria humana? De Balzac, o astuto crítico da infantilidade dos homens... De Antônio Torres, o contador da história dos trabalhadores pobres e migrantes nordestinos... Como Cecília, na sua poesia enigmática e tão bem expressa... De Merquior, com toda a sua erudição espantosa... De Marx e sua raiva implícita nas críticas da filosofia idealista e do capitalismo...
                Às vezes eu abro a página eletrônica do Museu Nacional e fico olhando os links dos professores, os grandes antropólogos que esse país tem. São meus ídolos, apesar de conhecê-los pouco... Admiro a todos os escritores do mundo, a concentração deles, a solidão deles, as palavras deles... Sobretudo os capazes de inovar... Foucault, Sahlins e Viveiros de Castro talvez sejam os maiores inovadores dentre eles... Os cineastas também são escritores. E como gosto dos textos em tela de Almodóvar, Tarantino, Kurosawa (o maior de todos!), Murnau, Coppola e companhia...
                Repito: escrevo porque tenho vontade de dizer. Acredito que eu também tenho o que dizer... Escrevo para perseguir uma estética a qual, creio, nunca alcançarei... Persigo o meu texto como a lembrança persegue um amor passado, tentando resgatar um gozo da noite que não mais voltará... Escrevo sobretudo porque tento ser além do que eu sou... Concordo com Leminski quando ele diz que sendo quem somos iremos, um dia, além. Mas isso não cabe pra mim. Eu só irei além quando, de fato, for além. Escrevo para ir além...

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