Sábado partirei para uma viagem pela América do Sul. Na verdade será uma viagem na qual eu passarei pelo Uruguai, Argentina, Chile e Paraguai, nessa ordem. Estou animado, pois essa será a primeira vez que eu faço um mochilão por outros países. Será minha primeira viagem ao exterior, minha primeira viagem de avião e minha primeira saída do estado do Rio de Janeiro. A minha vida toda passei dentro da região metropolitana do Rio, mas precisamente em Duque de Caxias, minha terra natal. Conhecer outros países, sair do lugar no qual vivi minha vida toda é algo que me excita, ao mesmo tempo em que me deixa meio que com medo. Esse mundo é muito vasto, como diria Drumond, e toda essa vastidão me assusta. Tenho a impressão que o homem moderno, se é que ele realmente existe, vive fragmentado em várias opções de caminhos a serem seguidos. O problema, ou a solução do problema, é que nenhum desses caminhos devem ser obrigatorimanete seguidos. Para vivermos basta darmos o primeiro passo que poderá nos levar a um lugar foda, ou ao inferno, ou a lugar algum ou ao ponto do qual partimos. E tudo isso fica muito nítido quando andamos pela cidade e vemos a diversidade de pessoas e de linguagens que pode existir num mesmo espaço. Nem acho que o Rio de Janeiro seja uma cidade cosmopolita. Caxias certamente não é, mas o Rio é a mistura do podre com o belo espalhado numa sopa confusa e fedorenta e com uma embalagem escrita "cidade maravilhosa". E dentro disso tudo é fortemente sentido um cheiro de tradicionalismo muito profundo no modo de pensar das pessoas. Resumindo: carioca não é um tipo de pessoa doido, malucão, porra louca. É um conservador travestido disso tudo. O Rio me dá náuseas. E é por isso que eu estou muito empolgado com essa minha viagem por esses países latino-americanos, pois penso que agora finalmente eu verei coisas diferentes, sentirei o gozo e o medo da modernidade e da multiplicidade de coisas que ela traz.
Mas é nessa hora que me lembro das palavras de um amigo meu autor de um blog já extinto. Ele disse em certa ocasião que quando viajamos levamos conosco os problemas e os dilemas que estão instalados em nós. Viajar pode mudar a nossa sorte e o nosso estado de espírito, mas não apagará marcas que o passado nos deixou. E o passado tem deixado marcas cruéis em mim. Fico impressionado como existem pessoas que passam pelas nossas vidas com a habilidade de deixar rastros de perversidade e mágoas. E é incrível como que os papéis se invertem. Às vezes nós somos as vítimas, enquanto noutras somos os assassinos. Digo isso porque eu já deixei marcas, rastros ruins em pessoas as quais amei e amo muito. E hoje sou eu quem está nessa posição de soldado em fim de guerra, marcado por memórias tristes e pelo cansaço de batalhas perdidas. Estou de saco cheio de tudo. De tudo, mas não de todos. Tenho amigos queridos, tenho uma família que, apesar de ser bem diferente de mim, é a minha família que sempre esteve ao meu lado, muito embora não da forma que eu gostaria. E tenho o carinho dos meus alunos, os quais com o afeto que lhes são particular me fazem continuar a querer ser professor, pois são eles quem me fazem professor. Enfim, as últimas batalhas que enfrentei me deixaram meio que sem graça. Mas há pessoas que me cercam e que me inundam de um amor meio raro nos tempos de hoje. O amor que tenho recebido de pessoas queridas por mim tem funcionado como um curativo das granadas que recebi em 2010. E essas granadas não foram poucas, e desde a minha infância não têm sido poucas. Já que a vida é assim, que venham, então, as granadas. Mas que venham também na mesma proporção o amor com o qual pessoas queridas me cercaram nesse ano.
Parto em breve e retorno bem, se Deus quiser. Tentarei mandar notícias inúteis de uma viagem fantástica. Sinto que a América do Sul ficará pequena. Que fique então...

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