As minhas emoções estão sempre suspensas. Elas correm de mim o tempo todo. Parece que sou um homem sem sentimento. Acho que se alguém tivesse a bizarra experiência de olhar para dentro de mim seria isso que pensaria: que eu não sinto nada.
No entanto eu carrego em mim todas as mágoas e alegrias do mundo. Ando em meu peito por vielas sujas onde trabalham prostitutas, travestis e onde dormem crianças abandonadas. Mas gosto muito da minha casa, do meu cachorro e meu colchão quente. Da minha janela olho o mundo e sinto todos os espíritos que nele habitam andarem pelas ruas do meu espírito. Mas a vida anda, sempre anda e eu pareço suspenso no ar, uma bolha sempre insatisfeita, sempre fuzilando a própria vida com a metralhadora do cérebro.
Eu sinto muito, sinto tudo o que está em minha volta. Tudo que vejo pela janela dos ônibus nos quais ando e nas ruas pelas quais passo fica em meu ser, está carimbado no meu coração. Mas confesso que não queria ter nascido com esse dom. Sentir a vida como um todo, a sua e a dos outros, é sentir uma constante dor que vem do peso que é a grandiosidade da vida. Viemos sabe-se lá de onde (se é que viemos de algum lugar). Vamos sabe-se lá para onde (se é que vamos para algum lugar). Não sabemos se quer se existe uma origem pras coisas da vida. A despeito disso, vivemos. Vivemos, sofremos, bebemos, comemos, nos alegramos, fazemos sexo, nos decepcionamos, rimos, choramos, caminhamos, paramos, doamos, recebemos, somos egoístas, somos altruístas... Mas sempre vivemos. Continuamos. Entramos sempre nos universos alheios e permitimos que os outros entrem nos nossos universos. Por mais que queiramos ficar sozinhos, nunca o estamos. Nunca... A solidão consiste na completa suspensão do ser, e isso não existe. O nosso ser só é em contato com a vida. E a vida só há nos outros, nunca somente em nós. A vida é bela, meus caros. E é triste porque é grande: porque é alegre, porque é irônica, porque é trágica, porque é imoral... A vida é triste porque ela é grande e ela não cabe no nosso frágil coração...
Odeio Jesus Cristo. Mas devo dar o braço a torcer: Jesus, ao menos a lenda da qual ouço falar desde pequeno, foi o maior dos poetas. Não aquele babaca que nasceu para salvar a humanidade de si mesma. Não se pode salvar os homens de si mesmos (a vida é grande, Jesus Cristo, e é por isso que ela é triste...). Mas reconheço uma coisa: Jesus, a lenda chamada Jesus, o mito chamado o Cristo era um verdadeiro poeta, pois ele sentia a humanidade, a vida em suas veias vinte e quatro horas por dia. E foi isso que o levou a cruz: a tentativa (vã, inocente, idiota...) de salvar a vida dela própria. Engraçado Deus ter criado a vida e depois ter se arrependido. Mas essas coisas acontecem: nós, homens, nos arrependemos o tempo todo. Somos a “imagem e semelhança” de Deus... Somos Deus... Mas Jesus era um poeta e deu o seu dom para alguns infelizes mortais, e eu sou um deles...
Ando pelas ruelas escuras, triste e preocupado em saber se esse é mesmo o meu lugar. Sinto a paz da família e a tristeza da mulher ferida, ao mesmo tempo, tudo aqui dentro do meu coração. Sou o “underground” de terno e gravata que precisa se sustentar (e por isso trabalha) para sustentar a sua poesia. Ando bem vestido e na contramão das ilusões humanas. Mas sou um iludido. Acredito na dor dos corações partidos, acredito nos amigos, acredito que exista alguém nesse mundo que queria dividir a sua vida comigo no exato momento em que meu espírito estiver pronto.
Sou um iludido... Sou um criador de ilusões...

Me identifiquei com o texto, ficou muito bom.
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